É verdade que as menstruações sincronizam entre si?
- Estela Santos

- há 3 dias
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Entenda o 'efeito McClintock' e descubra se a sincronia dos ciclos menstruais entre amigas é um fenômeno biológico ou pura coincidência.

A ideia popular de que os ciclos de mulheres que vivem ou trabalham juntas se alinham magicamente é um dos fenômenos mais fascinantes e debatidos no universo da saúde feminina. Essa percepção, celebrada há décadas por amigas e colegas, levou a ciência a investigar uma questão fundamental: será esse alinhamento uma prova de comunicação biológica invisível entre corpos, ou apenas uma coincidência estatística poderosa, reforçada pela nossa mente?
Desde a hipótese ousada lançada nos anos 1970, a comunidade científica tem travado um intenso debate, utilizando metodologias cada vez mais rigorosas. A seguir, vamos desvendar a origem dessa teoria, analisar as evidências que a sustentam e, mais importante, confrontá-la com os dados maciços e as análises mais recentes.
A teoria da sincronização nasceu de um estudo clássico de Martha McClintock, que deu origem ao popular “Efeito McClintock”, foi motivado pela observação comum e anedótica de que mulheres vivendo em estreita proximidade como em internatos, conventos ou dormitórios universitários pareciam ter seus ciclos menstruais se alinhando com o tempo. apesar de influente e de ter moldado a cultura popular, é hoje visto com grande ceticismo.

A hipótese era que a exposição a feromônios (supostos ecto-hormônios humanos) liberados pelo suor ou secreções axilares de uma mulher afetaria o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal de outra, regulando o tempo de sua ovulação.
A fragilidade do estudo original de McClintock reside em críticas estatísticas e metodológicas que minaram sua credibilidade ao longo das décadas. Críticos notaram que o método de McClintock não era robusto contra a aleatoriedade.
O rigor científico e o ceticismo crescente

Apesar de sua popularidade imediata, o “Efeito McClintock” começou a ser contestado pela ciência com o passar do tempo. A crítica não é um ataque à ideia, mas sim um questionamento à metodologia estatística do estudo original.
A Falha da Aleatoriedade: O principal problema é matemático. Dada a variação normal dos ciclos (24 a 38 dias) e a duração da menstruação (em média, 5 dias), é uma certeza estatística que os ciclos de duas mulheres irão se aproximar e se sobrepor em intervalos regulares, mesmo que não haja influência biológica. Não há evidência robusta de que feromônios humanos funcionem com a potência e a especificidade necessárias para alterar o eixo hormonal reprodutivo de outra pessoa de forma consistente.
Para confirmar ou desmentir a teoria, pesquisadores posteriores buscaram replicar o estudo de McClintock, mas usando estatísticas mais sofisticadas, que levassem em conta a inevitável sobreposição casual.
Em 2006, Schank e sua equipe analisaram 186 mulheres com modelagem matemática rigorosa para a Human Nature. Concluiu que a sobreposição de ciclos era indistinguível daquela esperada pelo puro acaso. Negou a sincronização.
Já nos estudos da Clue & Universidade de Oxford (2017) Estudo de Big Data (Global), foram analisados dados longitudinais de 1.500 pares de mulheres. O estudo demonstrou que, na maioria dos casos, a diferença nas datas de início da menstruação aumentava com o tempo. Concluiu, portanto, que a convivência não causa sincronia.
Wilson e colaboradores (1992), na Universidade de Sheffield (Reino Unido) utilizaram métodos estatísticos mais complexos para reavaliar a sincronia. O estudo concluiu que a sincronia observada não ia além da esperada por chance.
Conclusão: onde a percepção encontra a ciência
O consenso científico atual é claro: a sincronização menstrual, tal como proposta por um mecanismo de feromônios, não é uma realidade biológica comprovada. É, em termos de dados, um mito popular.
A explicação humana: por que essa crença é tão forte?
A resposta está no viés de confirmação. Quando a menstruação de duas amigas coincide, a experiência é notada, celebrada e lembrada (“Olha, estamos sincronizadas!”). Quando não coincide, a ocorrência é ignorada ou esquecida.
Embora a sincronia não seja mediada por feromônios, a experiência de sentir-se sincronizada tem um valor social e emocional inegável. Ela reforça o vínculo, a empatia e o sentimento de comunidade, o que é um fator humano real e positivo, ainda que a fisiologia não esteja de fato alinhada. Em resumo: a coincidência estatística nos dá a aparência da sincronia, e nosso desejo de conexão nos leva a acreditar nela. A ciência reconhece o valor da experiência humana, mas insiste que o “Efeito McClintock” é uma bela, mas infundada, história da biologia.




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