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Saiba por que ficar no ócio deve estar nas suas metas para 2026

  • Foto do escritor: Mariana Chagas
    Mariana Chagas
  • há 23 minutos
  • 4 min de leitura

Momentos de ócio, mesmo que gerem tédio, podem estimular a criatividade, regular emoções e gerar reflexões. Conheça os benefícios do ócio para a saúde mental.



O incômodo do vazio


Quem nunca ouviu dizer que “mente vazia é oficina do diabo”? A expressão popular descreve um fenômeno que acontece com frequência: quando nossa cabeça está desocupada, sobra espaço para pensamentos negativos e ideias aparentemente ruins. Mas a verdade é que estar no ócio não é sinônimo de ouvir vozes malignas no pé do ouvido. Especialistas explicam que, nesses momentos, o que verdadeiramente ouvimos é o nosso interior.


A gente fica incomodado de estar entediado porque, no tédio, entramos em contato com a gente mesmo”, aponta Leticia de Oliveira, psicóloga comportamental. “Conseguimos visualizar emoções e sentimentos que estavam abafados, escondidos. É no tédio que a gente percebe, por exemplo, uma insatisfação, uma frustração, uma insegurança ou uma relação que não está bacana”.


A profissional conta que, enquanto estamos produzindo, é possível se distrair da maior parte dos incômodos. É como se nossa cabeça pudesse, de certa forma, esquivar das nossas reais sensações por um período. No ócio, em contrapartida, tudo volta à tona.


Mas, afinal, o que é o tédio?


Psicologicamente falando, o tédio é um estado comum, que pode acontecer em qualquer ocasião, não apenas durante o ócio. “Relacionado a sensações negativas, como uma inquietação, letargia e desinteresse, ele aparece quando a pessoa não encontra prazer em uma atividade, seja ela mental, como estudos ou leitura, ou que envolva ações motoras, como trabalhar”, explica Jonia Lacerda Felicio, coordenadora do curso de psicologia da Faculdade Beneficência Portuguesa de São Paulo.


A especialista ainda aponta que o tédio prejudica a atenção e a concentração, fazendo com que haja dificuldade em completar demandas e atividades. Ele pode causar uma certa sensação de estagnação, junto a um forte desejo de novos estímulos ou mudanças.

De maneira geral, é um estado de desconexão, em que não há motivação e há divergência entre as expectativas e a realidade. O ócio, por outro lado, é a falta de ocupação, um tempo de quietude e repouso que pode, também, desencadear o tédio.


Nem tudo é ruim: o ócio importa


Apesar de difícil, ter contato com o ócio pode ser algo positivo. Segundo Leticia, o ócio é um dos maiores reguladores do sistema nervoso. “Quando a gente para de produzir, o cérebro entra num estado chamado modo padrão e é assim que nossa cabeça organiza quem somos”, informa a psicóloga.


No geral, a influência externa torna as pessoas constantemente vulneráveis a ambientes e relações. Acabamos reproduzindo padrões para nos sentirmos validados e pertencentes. Na ausência de estímulos, porém, surge a possibilidade de identificar o que realmente compõe a identidade e as razões por trás de nossas ações e comportamentos.


No ócio verdadeiro, o corpo sai do modo alerta e entra no modo recuperação. Isso provoca uma redução do estresse e da ansiedade, além de melhora da qualidade do sono e da clareza emocional”, elucida. O autoconhecimento, completa a profissional, só é possível graças a esses momentos em que o indivíduo entra efetivamente em contato consigo mesmo, sem distrações. 


O papel das telas e a desconexão



Por mais paradoxal que seja, quanto mais conectados estamos, maior é a desconexão com o próprio interior. Ao mesmo tempo que parecem afastar o tédio, as telas também dificultam o acesso a nossas emoções e pensamentos.


Usar telas é uma atividade passiva. Eu continuo com o cérebro ligado, mesmo se estiver parado. Ao ver uma foto, eu me comparo, fico triste, me cobro, fico feliz, quero comprar, quero responder uma mensagem que está pendente... Tudo isso deixa nosso cérebro em atividade, e não estamos de fato vivenciando o ócio”, informa Leticia.


Além disso, Jonia ressalta que as mídias digitais e o tempo elevado de exposição à internet acaba, na verdade, por aumentar o sentimento de tédio, uma vez que o cérebro precisa dividir a atenção com inúmeras informações, com pouco aprofundamento e nível de envolvimento. 


A superficialidade diminui o sentido de significado e não colabora para que a pessoa fortaleça a identificação com aquela atividade que está realizando”, justifica. Por isso, viver o ócio de forma plena, sem a falsa distração das redes sociais ou outro passatempo digital, é tão importante.


No nada, pode surgir muito


Parar, respirar e olhar para o nada pode ser entediante, mas também extremamente valioso. Uma vez que o ócio é uma forma de autorregulação e de redução do estresse, ele é capaz de promover grandes reflexões e criatividade.


É como se vê na música, em que os intervalos ‘vazios’ são tão importantes para a melodia quanto as notas em si mesmas”, compara Jonia. Também é muito conhecido o fenômeno do “insight no banho”, quando estamos livre da tensão e o cérebro tem condição de pensar as situações a partir de novas perspectivas. 


Jonia complementa: “os sociólogos ressaltam o ócio como momentos e atividades em que a pessoa se libera das obrigações de trabalho, familiares e sociais. Assim, é um tempo aproveitado para o bem-estar da própria pessoa”. E é nesse espaço que encontramos, por fim, a nós mesmos. 


Da próxima vez que sua mente estiver vazia, por que não prestar mais atenção ao que os próprios pensamentos têm a dizer? Talvez descubra, por fim, que não havia nada de ameaçador no silêncio —apenas o interior, enfim, encontrando espaço para ser ouvido.



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