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Os documentários do Oscar que mais me fizeram pensar

  • Foto do escritor: Papo de Paula
    Papo de Paula
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Prisões, aborto e guerra são o ponto de partida para histórias sobre pessoas comuns diante de estruturas muito maiores do que elas.



Quero escrever sobre os três documentários que mais me marcaram nessa última disputa pelo Oscar. Dois deles estão no streaming da HBO: ‘Alabama presos do sistema’ e o curta ‘O diabo não tem descanso’.

O longa acompanha homens encarcerados no sistema prisional do Alabama (EUA), considerado um dos mais violentos do mundo. Mas, ali, grande parte das imagens foi gravada pelos próprios presos com celulares contrabandeados, mostrando de dentro a realidade brutal das prisões. Homens são diariamente assassinados por policiais e em nenhum momento a gente fica sabendo porque que eles estão lá dentro e a maioria dos presos ou já está lá há muito tempo ou ainda vai ficar muito tempo. Quando as autoridades são questionadas sobre a violência, as mortes, a superlotação, sem contar as drogas, a governadora decide construir três presídios gigantes que vão custar 900 milhões de dólares.

‘O diabo não tem descanso’ é um documentário curta- metragem de um pouco mais do que 30 minutos, que acompanha um dia na rotina da chefe de segurança de uma clínica de aborto em Atlanta, nos Estados Unidos.

O terceiro filme, ‘Um Zé ninguém contra Putin’, acompanha o professor de uma escola primária em uma pequena cidade da Rússia, de 10 mil habitantes, que passa a documentar, aos poucos,  a militarização da escola (e da vida deles).

São temas pesados e que fazem a gente ficar pensando depois que assiste. E olha que os documentários norte-americanos me deixaram confusa em vários momentos por conta das leis deles, que eu não conheço e que não é explicada em nenhum filme. Talvez eu não tenha sentido isso vendo o documentário russo, porque já estive em uma escola e, por isso, consegui perceber melhor a mudança na vida das pessoas, tanto dos alunos quanto dos professores.


 

O começo de O diabo não tem descansomostra Tracy programando todo o seu dia de trabalho e muito preocupada com a segurança e a entrada de carros e pessoas na clínica. O motivo de tanto cuidado é logo explicado no começo do dia de trabalho, quando chegam alguns manifestantes com cartazes e megafones, transformando a entrada da clínica em um lugar hostil.

Mulheres lidando com escolhas pessoais e íntimas enquanto são criticadas, homens presos totalmente à mercê do estado e dos policiais da prisão, um jovem professor que chama sua sala de espaço democrático e que, de repente, tem que lidar com seus ex alunos sendo convocados para a guerra. Fica em mim o sentimento de que não tem como fugir dessas situações, o único caminho ali é lidar com elas.

O que eu vejo que se repete nos três filmes é que todos eles, pessoas comuns, lidam com estruturas maiores do que eles mesmos, todos lidam com o Estado. É ele quem decide sobre o corpo feminino, sobre a vida dos detentos e a nova e militarizada vida que os russos terão. Não tem saída fácil. Como lidar uma questão complexa como o aborto? Como manter a lei dentro de uma penitenciária? Como sobreviver a um mundo completamente modificado pela guerra? E em todos os casos: como conviver com a banalização da violência? Pra quem você vai pedir ajuda?

Pasha encontra uma solução, mas, pode ficar tranquilo, que esse spoiler eu não vou dar. Vendo a história dele fiquei pensando: até quando dá pra viver em uma sociedade que você não reconhece mais? Num lugar que você não tem mais escolha?

Pasha Talankin quer que as crianças tenham esperança: “sempre pelo que esperar”. Ele começa o documentário explicando que é o coordenador de eventos da escola e também cinegrafista. “Omeu local de trabalho é a maior escola de uma cidade bem pequena”. Ele passa a ter que filmar as aulas e mandar para um banco de dados do governo. Pasha mora em um apartamento de dois quartos no centro de Barash, onde ele tem 427 livros organizados por cor. Ele cresceu sabendo que era diferente dos outros meninos e estudou naquela mesma escola que hoje trabalha. Ele diz que  sempre foi solitário quando criança, em casa e na escola, mas agora, como professor, sente que dentro da escola pode criar a própria família. “Essa sala aqui é um pilar da democracia em todo o nosso mundo não democrático”. Ele cria um ambiente que gostaria que tivesse existido quando era criança, um espaço para os alunos serem livres e se expressarem, sendo eles mesmos, sem medo. Pasha tem uma vida simples e solitária, muito dedicada à escola e a única pessoa da sua vida que conhecemos é sua mãe, uma bibliotecária.


Quando a guerra começa e o ‘“currículo patriótico” é imposto, as crianças passam a ter  aulas, músicas, exercícios matinais específicos e Pasha tem que filmar tudo, não por escolha, mas para provar que a escola está seguindo as ordens do governo. “Todos os dias, havia novas aulas obrigatórias(...)trabalho extra de propaganda”.

Ele se preocupa com as crianças ouvindo tudo aquilo, sem saber ainda como viver suas vidas porque são só crianças. “O amor pelo seu país não é sobre hastear uma bandeira, amor pelo seu país significa dizer ‘nós temos um problema” Mas não é assim que a maioria da população, acuada, age. Os meninos que acabaram de se formar começam a ir para a guerra, a raspar o cabelo, as pessoas ao sentem medo ao ver a câmera e a sala de Pasha não é mais como antes. Pasha dizia que a sala dele era uma democracia e agora as crianças têm medo de ir lá. Enquanto o mundo ao redor faz cada vez menos sentido, ele confessa como ainda ama aqueles “prédios cinzentos da era soviética”.

 

 

‘Um Zé ninguém contra Putin’ ganhou o Oscar de Melhor Documentário esse ano. O filme é proibido na Rússia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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