Sobre pressão estética
- De Mulher Para o Mundo
- há 5 dias
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Busca pelo corpo perfeito tem levado homens e mulheres ao extremo e as redes sociais só pioram tudo.

Nos últimos dias, a internet não para de falar em um assunto: a morte de Gabriel Ganley, um fisioculturista de 22 anos. Apesar de ter lido sobre o assunto sábado passado, foi no domingo que pipocaram comentários sobre o jovem fisiculturista. Parecia que todo mundo o conhecia, seguia e acompanhava seus treinos e preparos nas redes sociais.
Eu sempre fico impressionada com esses corpos absurdamente definidos, que me passam aquela impressão de homem forte e bravo, sério. Então fui assistindo Ganley em podcasts e de cara gostei dele: humilde, comunicativo, carismático. Fiquei ainda mais triste e pensei: como isso aconteceu?
Eu acho que ele nunca pensou que alguma coisa ruim pudesse acontecer pra uma pessoa tão jovem como ele. Quem pensaria nisso? “Comendo que nem um passarinho”, levantando muito peso, treinando até o limite. Masculinidade extrema.
As redes sociais pioram tudo, eu cheguei a assistir um vídeo de Ganley mostrando os músculos em um estacionamento enquanto uma plateia de meninos gritava, aplaudindo e fazendo “fiu fiu”. Parecia um culto à força física, ao corpo extremo, performance masculina levada ao máximo. Foi impossível não pensar nas mulheres.
Eu pensei em quantas mulheres eu vejo ficando anoréxicas querendo “ser magras” e não percebendo que parece que estão doentes. E, de repente, parecia que esse menino estava fazendo a mesma coisa: usando métodos absurdos para ficar no shape, magro e musculoso, sem pensar direito que aquilo podia estar fazendo muito mal pra ele.
Assisti mais um vídeo dele e, de repente, começou uma enxurrada de conteúdos sobre Ganley falando da insulina (e ele não era diabético). Vi um atrás do outro. E pensei: se aquele vídeo da insulina tivesse viralizado antes, furado a bolha fitness e virado assunto em todo lugar, será que essa história poderia ter terminado diferente? Porque muita gente comentaria. Especialistas falariam dos riscos. Outros fisiculturistas debateriam aquilo publicamente. E eu sei disso porque agora eles estão falando. E eu pensei nas mulheres fisiculturistas. Porque, sim, têm mulheres fisiculturistas por aí. Como será que elas estão cuidando da própria saúde?
Em entrevistas e podcasts que assisti, Ganley mostrava ter consciência dos riscos. Em uma delas, dizia que o protocolo que seguia poderia diminuir sua vida em 10 ou 15 anos, mas que aceitava esse preço. Dez ou quinze anos é quase o tempo inteiro que ele viveu. E isso me fez pensar: será que os homens são mais inconsequentes com o próprio corpo? Pensam menos no que vem depois? Ou simplesmente aprenderam que masculinidade significa ultrapassar limites, ignorar dor e transformar o próprio corpo numa máquina?
Mas, para entender essa história, você tem que saber que Gabriel Ganley, antes de ser um fisiculturista ou um atleta, era um influencer fitness com close friends pago e patrocínio de marcas, inclusive uma de suplementos. Uma imagem construída para a internet. Tem um vídeo dele com dois amigos em que ele abre uma embalagem, enche a mão de cápsulas e toma tudo de uma vez. Todo mundo ri. O corpo virou produto, mais uma vez.
Segundo dados divulgados pelo G1, o universo dos fisiculturistas influencers cresce cada vez mais no Brasil e o país já é considerado o segundo maior mercado de fisiculturismo no mundo.
Parece que existe todo um universo de influencers fortões que aparecem mais nas redes sociais do que participam de campeonatos. Quanto mais extremo o físico, maior a chance de fama, patrocínio e engajamento. O sensacionalismo atrai likes. Mas a gente já sabe disso, né?
Eu leio, quase que diariamente, notícias de mulheres morrendo por procedimentos estéticos. Mulheres colocando a própria saúde em risco para atingir um padrão impossível. Agora vejo homens fazendo o mesmo, só que através da musculatura extrema, dos hormônios, da obsessão por performance. Tem até termo, eles falam “hormonizado”.
Ninguém falou pra ele que ele estava exagerando? E ele estava mesmo exagerando mesmo? Penso que talvez o mais assustador seja justamente isso: estamos vivendo uma época em que o excesso deixou de parecer excesso. Estamos vivendo uma época de banalização.




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