Criando pontes na ciência: Tatiana Coelho de Sampaio
- Hellica Miranda

- há 1 dia
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Pesquisadora é reconhecida mundialmente por seu trabalho com lesões na medula espinhal.

A cientista
De acordo com a Folha, desde criança, Tatiana Coelho de Sampaio, de 59 anos, diria que seria cientista quando crescesse. Tatiana foi estimulada pelo pai, engenheiro, economista e filósofo, que trazia à tona conversas sobre matemática, física e filosofia.
“Eu achava fantástico o negócio de átomos, prótons, nêutrons, elétrons. Queria fazer física nuclear”, declara a bióloga.
Na escola, a paixão pela física mudou para a biologia, mas o desejo de trabalhar com pesquisa se manteve.
Entre 1983 e 1986, Tatiana cursou a graduação em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), emendando no Mestrado em Ciências Biológicas (Biofísica) como bolsista pela CAPES.
Na década de 1990, a cientista concluiu seu Doutorado em Ciências pela UFRJ em tempo recorde com período sanduíche e foco em bioquímica de macromoléculas — é como estudar a diferença entre uma pilha de tijolos (moléculas pequenas) e uma parede pronta (macromolécula).
Aos 27 anos, depois de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, Sampaio assumiu uma vaga de docente e pesquisadora no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), na sua alma mater (UFRJ). Nesse meio-tempo, estagiou para pós-doutorado nos Estados Unidos, na Universidade de Illinois.
Foi a partir daí que Tatiana iniciou a linha de pesquisa que viria a definir sua carreira: o estudo da laminina, uma proteína presente na placenta e no sistema nervoso.
No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, realizou um segundo pós-doutorado, na Alemanha, na Universidade de Erlangen-Nuremberg.
Durante todos os anos 2000, focou seus estudos na estrutura das proteínas da matriz extracelular — todo o material que fica fora (extra) da célula (celular), preenchendo os espaços entre elas.
Nesse período, seu grupo descobriu que, ao modificar o pH da laminina, a proteína se reorganiza em uma forma polimérica (polilaminina), que demonstrou aumentar em mil vezes a regeneração de neurônios em testes de laboratório (in vitro e em animais) e que está sendo usada para criar uma rede — uma ponte biológica — que permite que os neurônios encontrem um caminho para atravessar a lesão na coluna e se reconectarem.
“A polilaminina caiu na minha cabeça”, disse ela, em entrevista. Ela conheceu a molécula em 1997. “São 28 anos trabalhando com a mesma proteína, mas não fiquei 28 anos fazendo a mesma coisa. A trajetória é muito dinâmica”.
Pesquisa translacional
Entre 2010 e 2020, Tatiana dedicou-se aos testes pré-clínicos e à viabilização da aplicação terapêutica, enfrentando o desafio de transformar “ciência básica” (de bancada) em um medicamento aplicável (ciência translacional), buscando patentes e parcerias para a produção da molécula.
Em 2023 e 2024, iniciaram-se as aplicações experimentais (uso compassivo, ou seja, essencialmente, um mecanismo regulatório de “último recurso”) da polilaminina em pacientes humanos com lesões crônicas na medula.
A pesquisa ganhou notoriedade massiva na mídia (Jornal Nacional; Fantástico) após a divulgação de casos de pacientes tetraplégicos que recuperaram movimentos de tronco e sensibilidade em setembro de 2025.
Em dezembro do mesmo ano, Tatiana Coelho de Sampaio foi eleita “Carioca do Ano” na categoria Ciência pela revista Veja Rio, um reconhecimento ao impacto social de seu trabalho.
Já em fevereiro de 2026, foi convidada para uma audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado Federal para discutir o financiamento e a regulação da pesquisa.
Sua pesquisa encontra-se em fase de aprovação e tratativas com a ANVISA, para ampliar os ensaios clínicos (Fase 3), visando transformar a descoberta em um medicamento acessível pelo SUS.
Quem é Tatiana Coelho de Sampaio?

Tatiana Coelho de Sampaio tem 59 anos, é mãe de dois filhos biológicos, de 21 e 25 anos, e acolhe uma jovem maranhense de 28 anos como filha adotiva. “Sou mãezona. Se tivesse que me definir, seria isso”.
A cientista vive no bairro de Laranjeiras (RJ), é descrita como “avessa às redes sociais” — não possuindo perfis ativos em nenhuma — e inteiramente focada na vida acadêmica e familiar, chegando a ter uma rotina cansativa com apenas 6 horas de sono por noite.
Filha de filósofo, Tatiana já citou que precisou vencer o conservadorismo acadêmico para ousar levar sua pesquisa da bancada para o leito dos pacientes.
Ela alega, no entanto, não ter enfrentado barreiras profissionais por ser uma cientista mulher. “Na área biomédica somos maioria há muito tempo. O desafio não é a representatividade, é conciliar vida pessoal e trabalho”.
Fora do rigor científico, Tatiana cultiva a leveza dos hábitos simples. Prefere a descontração de um boteco, regado a cerveja e samba, aos protocolos de restaurantes sofisticados ou roteiros de luxo. Sua casa, assim como seu laboratório, é um espaço de portas abertas e circulação constante: alunos, sobrinhos e amigos dos filhos transformam o ambiente em um ponto de encontro vibrante. “A pandemia nem passou por aqui”, brinca, referindo-se à casa sempre cheia.




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