A transgressora Hilda Hilst: entre o sagrado e o profano
- Barbara Schreurs

- há 2 horas
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Mística e transgressora: a jornada de Hilda Hilst, que trocou a sociedade pelo isolamento para investigar a alma humana.

Hilda Hilst é considerada uma das vozes mais potentes, densas e polêmicas da literatura. Sua obra, que transita entre a poesia, a prosa e o teatro, desafia as fronteiras entre o desejo, a finitude e a busca por Deus.
Juventude e herança do delírio
Hilda de Almeida Prado Hilst nasceu em Jaú, em 1930. Filha única de Apolônio de Almeida Prado Hilst e Bedecilda Vaz Cardoso, ela cresceu sob a sombra da genialidade e da loucura. Seu pai, um fazendeiro e intelectual, sofria de esquizofrenia, um fato que moldou a percepção de Hilda sobre a sanidade e a morte.
Aos sete anos, Hilda viu seus pais se separarem e mudou-se para São Paulo com a mãe. Estudou no tradicional colégio Santa Marcelina, onde já demonstrava uma inteligência inquieta. Mais tarde, ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), onde se tornou uma figura lendária pela sua beleza e pela postura desafiadora em um ambiente majoritariamente masculino. Foi nessa época que publicou seu primeiro livro, “Presságio” (1950), recebendo elogios de nomes como Cecília Meireles e Jorge de Lima.
O isolamento criativo

Em 1966, no auge de sua vida social na capital, Hilda tomou uma decisão radical: abandonou o “mundo das aparências” para se dedicar exclusivamente à literatura. Ela construiu a Casa do Sol em uma chácara de sua família em Campinas.
Ali, ela não era apenas uma escritora; era a anfitriã de um universo paralelo. Rodeada por dezenas de cães e recebendo amigos como Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles, Hilda transformou sua residência em um centro de resistência intelectual. A Casa do Sol era o seu mosteiro e o seu palco.

O amor e a liberdade
Hilda nunca aceitou as amarras do matrimônio convencional. Embora tenha sido casada com o escultor Dante Casarini, sua relação era baseada na parceria intelectual e na liberdade. Dante foi quem a ajudou a construir e manter a Casa do Sol, permanecendo ao seu lado mesmo após a separação formal, ele passou a viver em uma casa anexa na propriedade, respeitando a necessidade de isolamento de Hilda.
Diferente de Simone de Beauvoir, que mantinha um pacto público com Sartre, as relações de Hilda eram vividas no privado, marcadas por uma intensidade que ela transportava para seus poemas. Ela via o amor como uma forma de transcendência, mas também como um campo de batalha.
Hilda e o feminismo, uma autonomia sem rótulos
Embora Hilda Hilst tenha vivido uma vida de extrema independência, frequentemente refutava rótulos. Em entrevistas, deixava claro que sua busca era pela excelência literária acima de qualquer distinção de gênero. Ela dizia: "O que importa é a qualidade do que se escreve, e não o sexo de quem escreve”.
Para Hilda, a verdadeira emancipação estava no direito de ser uma “escritora total”, tratando de temas como a morte e o sagrado com a mesma liberdade que os homens. Sua vida na Casa do Sol foi a prova viva de que uma mulher poderia ser o centro de seu próprio universo intelectual, sem pedir licença a ninguém. Enquanto a sociedade esperava que escritoras mulheres ficassem restritas ao âmbito do “sentimental” ou do “doméstico”, Hilda explodiu essas barreiras ao escrever sobre temas universais como a morte, o nada, Deus e o sexo visceral.

Muitas estudiosas contemporâneas apontam que Hilda praticava o que se pode chamar de “feminismo da transgressão”, Ao se recusar a ser “musa” de qualquer homem e ao assumir o papel de mestre de sua própria casa e obra, ela desafiou o patriarcado literário brasileiro de forma definitiva. Em entrevistas, Hilda frequentemente demonstrava impaciência com quem tentava reduzir sua literatura ao gênero. Hilda queria ser lida como uma escritora total, cuja inteligência não tinha sexo, mas cuja experiência de mundo era indubitavelmente marcada pela coragem de ser mulher.
Ama-me. É tempo ainda. Porque o tempo de amar é este, o agora. O depois é o tempo da cinza, do nunca mais, do silêncio de Deus.
— Hilda Hist
A fase da “bandalheira”: o escândalo literário

Após décadas escrevendo poesias metafísicas que a crítica elogiava, mas o público não comprava, Hilda, em um misto de ironia e desespero, decidiu “ficar rica” escrevendo o que chamou de “literatura pornográfica”.
Em 1990, lançou uma trilogia erótica, começando com “O Caderno Rosa de Lory Lamby”. O livro chocou o Brasil. Hilda usava palavras de baixo calão e cenas explícitas para, na verdade, criticar uma sociedade que ignorava a arte profunda, mas se deliciava com o escândalo. Ela provou que uma mulher intelectual poderia, sim, transitar pelo obsceno com maestria técnica e deboche político.
A busca pelo além e a ciência

Um dos aspectos mais fascinantes de Hilda era sua obsessão pelo contato com o pós-morte. Durante anos, ela se dedicou à Transcomunicação Instrumental (TCI), tentando captar vozes de mortos através de ruídos de rádio e gravadores de rolo.
Essa busca científica era, no fundo, a mesma busca de seus poemas: a tentativa de entender o que existe além da matéria. Hilda não aceitava o silêncio de Deus e passava noites em claro tentando decifrar o invisível, chegando a afirmar ter gravado vozes que respondiam às suas perguntas.
A obscena senhora D e o legado

Sua obra-prima em prosa, “A Obscena Senhora D” (1982), sintetiza sua filosofia. A protagonista Hillé, após a morte do marido, decide viver no vão da escada para investigar a “derrelicção” do mundo. É um texto difícil, mas recompensador, que coloca a mulher no centro da indagação existencial mais pura.
Hilda faleceu em 4 de fevereiro de 2004, mas seu legado cresce a cada ano. Hoje, ela é um ícone da autonomia feminina, lembrada como a mulher que não pediu licença para ser genial, obscena e sagrada ao mesmo tempo.
Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
— Hilda Hist.




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