As mães do Sudão: A luta desesperada pela sobrevivência em uma guerra esquecida
- Hellica Miranda

- 13 de abr.
- 8 min de leitura
Conflito gera a maior crise de deslocamento global e obriga mulheres a sustentarem sozinhas suas famílias em meio à fome e à violência.

Por dentro da guerra no Sudão
O Sudão está imerso em uma devastadora guerra que se iniciou em 15 de abril de 2023, como uma luta pelo poder político e militar entre duas facções rivais. O conflito se transformou na maior crise de deslocamento humano do mundo e em uma catástrofe de fome em larga escala.
O conflito começou como uma disputa entre as SAF (Forças Armadas do Sudão), lideradas pelo General Abdel Fattah al-Burhan e as RSF (Forças de Apoio Rápido), lideradas pelo General Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti).
As SAF, do General Abdel Fattah al-Burhan, são o exército regular do país, possuindo força aérea e armamento pesado. Responsáveis por controlar a maior parte do leste e norte do Sudão, incluindo Port Sudan (atual sede administrativa), recebem apoio diplomático e militar do Egito e, mais recentemente, restabeleceram laços com o Irã, recebendo drones do país governado por Masoud Pezeshkian, que também vive momentos de tensão..
As RSF, por outro lado, são um grupo paramilitar originado das milícias Janjaweed, responsáveis pelo genocídio em Darfur (oeste do Sudão e fronteira com a Líbia, o Chade, a República Centro-Africana e o Sudão do Sul) nos anos 2000. São, portanto, forças móveis, experientes em guerrilha urbana. Estão sob o controle das RSF grandes partes de Cartum, capital do país, que está em ruínas, a região de Darfur (estado no oeste do Sudão) e áreas agrícolas muito importantes no estado de Gezira.
O país, no momento, está efetivamente dividido: a capital, Cartum, encontra-se em ruínas, e a região de Darfur enfrenta violência étnica constante, com relatos de “atrocidades em massa”, de acordo com relatório da Médicos Sem Fronteira (MSF) em julho do ano passado.
A organização apelou para que as partes em conflito parassem com a violência indiscriminada e facilitassem uma resposta humanitária imediata em larga escala.
As pessoas não são atingidas ‘apenas’ por intensos confrontos indiscriminados […], mas também são ativamente visadas pelas Forças de Apoio Rápido e seus aliados, principalmente com base em sua etnia.
— Michel Olivier Lacharité, coordenador de emergências da MSF
Antes da guerra, o país era comandado pelo ditador Omar al-Bashir, que governou por três décadas a partir de um golpe de Estado em 1989. Bashir derrubou o governo democraticamente eleito de Sadiq al-Mahdi, suspendendo a constituição, abolindo o parlamento e proibindo partidos políticos.
Em 2003, o governo de Omar al-Bashir respondeu a uma rebelião na região de Darfur, mobilizando as milícias de Janjaweed. A campanha resultou em centenas de milhares de mortes e milhões de deslocados. Na época, a ONU descreveu a situação como uma das piores crises humanitárias do mundo.
Como consequência direta desse conflito, al-Bashir tornou-se o primeiro chefe de Estado em exercício a ser indiciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Em 2009 e 2010, o TPI emitiu mandados de prisão contra o governante por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. Para escapar, ele passou anos viajando por países aliados sem ser detido.
Sob pressão internacional e após anos de guerra civil, Bashir assinou o Acordo de Paz Abrangente (CPA) em 2005. Isso pavimentou o caminho para o referendo de 2011, no qual o Sul votou pela separação. Com isso, o Sudão foi dividido em dois, e Bashir presidiu a perda de cerca de um terço do território do país e a maior parte de suas reservas de petróleo.
Após meses de protestos populares desencadeados pelo aumento do preço do pão e pela crise econômica, Bashir foi removido do poder pelos próprios militares, encerrando seus 30 anos de governo. Posteriormente, ele foi julgado e condenado por corrupção no Sudão.
Após a queda do ditador, em 2019, civis e militares tentaram governar juntos.
No Golpe de 2021, os generais Abdel Fattah al-Burhan e Mohamed Hamdan Dagalo, o Hemedti, se uniram para derrubar o governo civil, interrompendo a transição democrática.
Pouco depois, na Reforma de Segurança, a comunidade internacional pressionou por um novo acordo. O ponto de ruptura foi a integração das RSF no exército regular: Burhan queria que isso acontecesse em 2 anos, ao passo que Hemedti exigia 10 anos, temendo perder sua própria parcela de poder. Essa tensão explodiu em um combate direto em Cartum.
De lá para cá, a guerra mudou de combates localizados para uma fragmentação total do estado. Com isso, a capital foi destruída, comas as RSF dominando o solo em grande parte da cidade, saqueando casas e edifícios. No oeste, a guerra tomou contornos de limpeza étnica. As RSF e milícias árabes aliadas passaram a atacar comunidades não-árabes. Há relatos confirmados de massacres, violência sexual sistemática e queima de vilarejos.
No final de 2023 e ao longo de 2024, as RSF avançaram para o estado de Gezira, considerado o “celeiro” do Sudão, o que cortou linhas de abastecimento e colapsou a produção agrícola.
Com todo esse conflito, cerca de 10 a 12 milhões de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas, criando campos de deslocamento. Milhões de pessoas correm risco de morte por inanição — e ambos os lados usam a fome como arma de guerra, bloqueando comboios humanitários e saqueando armazéns da ONU —, e a saúde no país está em colapso: aproximadamente 80% dos hospitais nas zonas de conflito não funcionam. Doenças como cólera, dengue e sarampo se espalham sem controle.
O Sudão é estratégico devido à sua costa no Mar Vermelho, suas reservas de ouro e sua fronteira com sete países instáveis. Com isso, muito se fala sobre como o Egito vê as SAF como garantia de estabilidade e segurança hídrica, ao passo que os Emirados Árabes Unidos são acusados de apoiar as RSF para garantir influência na região e acesso ao ouro.
As mães do Sudão

A Save the Children divulgou um relatório no dia 22 de janeiro, em que mostra que o Sudão enfrenta um dos maiores fechamentos de escolas do mundo, chegando a superar as paralisações no auge da pandemia de COVID-19.
De acordo com a análise, mais da metade das crianças em idade escolar do Sudão — cerca de 8 milhões — perderam cerca de 490 dias de aula desde que a guerra começou, em abril de 2023: essa duração é 10% maior que o fechamento de escolas durante a pandemia nas Filipinas, que foi o último país a retomar as aulas presenciais.
Ao contrário de outros lugares — e situações —, o aprendizado remoto não é possível para as crianças sudanesas, o que as deixa vulneráveis ao recrutamento para grupos armados e exploração sexual.
Isso agrava ainda mais a situação das mães sudanesas: obrigadas a trabalhar, também são as responsáveis por cuidar das crianças 24 horas por dia.
A Human Rights Watch (HRW) e a ONU documentaram uma epidemia de violência sexual, descrita como sistemática e generalizada.
Em Cartum e Darfur, mulheres e meninas sequestradas são mantidas em condições de escravidão sexual ou forçadas a “casamentos” com combatentes (principalmente das RSF, embora haja denúncias também contra as SAF).
O ministro de assuntos sociais do governo apoiado pelo exército do Sudão disse que as mulheres são as principais vítimas do conflito brutal em andamento desde abril de 2023. Sulaima Ishaq al-Khalifa disse que as mulheres sudanesas estão enfrentando “a pior violência sexual do mundo”, com relatos de estupro frequentemente perpetrados enquanto “a família testemunha” o crime.
Em Omdurman, distrito de Cartum, há registros de mães que, sem qualquer outra opção de renda ou ajuda humanitária, estão recorrendo à prostituição apenas para conseguir alimentar os filhos.
A situação obstétrica é descrita como “catastrófica” pelos Médicos Sem Fronteiras, especialmente em Darfur do Sul. A causa mais comum de morte materna nas instalações que ainda funcionam é a sepse (infecção generalizada), decorrente de partos realizados em ambientes totalmente insalubres e sem esterilização. Mulheres com complicações de parto não têm acesso a cirurgias, resultando na morte evitável tanto da mãe quanto do bebê.
Um relatório de setembro de 2024, divulgado pelo MSF, apontou que, somente em dois hospitais de Darfur do Sul, o número de mortes maternas representou mais de 7% de todas as mortes maternas registradas em todos os projetos do MSF no mundo inteiro naquele período.
A fome foi oficialmente confirmada no campo de deslocados de Zamzam, Darfur do Norte, em 2024, sendo a primeira confirmação global de fome desde 2020. Para ilustrar a situação, destaca-se o caso de famílias em Darfur que estão sobrevivendo comendo cascas de amendoim e ração animal.
A desnutrição entre mulheres grávidas e lactantes disparou, o que impede a amamentação e condena os recém-nascidos à inanição imediata.
Com os maridos mortos, combatendo ou desaparecidos, as mulheres assumiram sozinhas a chefia das famílias, mas são impedidas de se moverem livremente para buscar comida devido ao risco de estupro nas estradas.
Nos campos de deslocamento de Ad-Damazin, no sudeste do Sudão, mulheres sudanesas são forçadas ao trabalho manual em busca de mera sobrevivência.
Em entrevista para o Al Jazeera, uma mulher identificada como Rasha, vivendo em um desses campos de deslocamento, ignorou as regras da sociedade que ditam quais trabalhos são masculinos e quais são femininos e passou a trabalhar como lenhadora a fim de alimentar seus filhos. “A carpintaria é difícil, mas o machado se tornou uma extensão da minha mão”, diz ela. “Não há mais opções”.
Todavia, Rasha não é a única nessa situação. Milhares de mulheres sudanesas se tornaram as únicas responsáveis pelo sustento de suas famílias, a maioria trabalhando em condições adversas.
Em um relatório da Oxfam, Nadia Zahad, mãe de Ismail, um menino de 5 anos, fala sobre como perdeu o marido, o filho de 15 anos e a filha de 14, assassinados por soldados que invadiram sua casa. “A guerra levou tudo. Saímos apenas com a roupa do corpo. Aqui [no campo de deslocamento], estamos a salvo das balas, mas não há comida, estamos morrendo de fome.”
Nadia fugiu, grávida de gêmeos, a pé em direção à fronteira. Devido às condições extremas de estresse, fome e falta de assistência médica, ela sofreu um aborto espontâneo.
Hoje, ela vive focada exclusivamente em manter vivo o único filho que lhe restou, Ismail, de 5 anos. Ela conta que vendeu suas roupas e o telefone para comprar comida para o filho.
Mais de 30 milhões de pessoas — de um total de 46,8 milhões de habitantes — dependem de ajuda humanitária, alerta o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).
A liderança das mulheres do Sud
As mulheres permanecem em grande parte ausentes das negociações de paz, apesar de terem pago o preço mais alto. Nem as negociações de Jeddah em 2023, nem as discussões de Genebra em 2024 incluíram mulheres representantes.
A ONU Mulheres escreve que a participação das mulheres em acordos de paz aumenta sua durabilidade em mais de um terço, mas elas são sistematicamente excluídas das negociações.
No entanto, isso não impede que as mulheres sudanesas liderem do zero. A Plataforma Paz para o Sudão, que une 49 organizações lideradas por mulheres, exigiu 50% de representação em todos os esforços de governança e humanitários. Sua Declaração Feminista de Kampala informou os diálogos regionais em Adis Abeba, Kampala e Genebra. Ao mesmo tempo, as Salas de Resposta a Emergências — redes de base de mais de 20 mil voluntários — estão sustentando as comunidades por meio da distribuição de alimentos, atendimento de emergência e evacuação civil.
Para que a situação mude, em primeiro lugar, é preciso legitimar as redes de base femininas como verdadeiros sujeitos políticos. A criação de um 'Fórum de Paz do Sudão Liderado por Mulheres' — unindo a Plataforma de Paz, as Salas de Resposta a Emergências e grupos locais — não seria apenas simbólica, mas funcionaria como uma ponte institucional vital entre as comunidades e os mediadores formais.
Com o aval da ONU, essa liderança feminina poderia fiscalizar o cessar-fogo, coordenar corredores humanitários e desenhar a reconstrução do país. A lógica é clara: quando a participação das mulheres é substantiva, a legitimidade do processo se fortalece, a violência recua e a reconstrução ganha tração.
Em segundo lugar, representatividade sem recursos é apenas retórica. É imperativo haver financiamento direto, como um 'Fundo de Resiliência das Mulheres do Sudão', capaz de injetar microsubvenções em cozinhas solidárias e programas educacionais.
Por fim, a União Africana e a ONU precisam garantir um sistema de resposta rápida para a segurança dessas mulheres, incluindo evacuação emergencial. Proteger quem dedica a vida a proteger os outros não é um favor: é o teste moral mais elementar de qualquer agenda de paz.




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