top of page

"Em nossas terras, em nossos corpos": como a crise climática afeta a vida das mulheres

  • Foto do escritor: Hellica Miranda
    Hellica Miranda
  • 12 de jan.
  • 4 min de leitura

Estudo promovido pela WeWorld mostra como a crescente crise climática afeta a vida de mulheres ao redor do mundo.




Durante a COP30, realizada entre 10 de novembro de 2025 e 21 de novembro de 2025, foi apresentado o estudo “On Our Lands, On Our Bodies” (Em Nossas Terras, Em Nossos Corpos"), pela WeWorld. O estudo, pela primeira vez, focava especificamente em comunidades indígenas e levantava luz sobre a questão da crise climática sob a perspectiva de gênero. A pesquisa concluiu que a crise afeta as mulheres das maneiras mais íntimas possíveis: sobre seus corpos e sobre suas vidas reprodutivas.



“On Our Lands, On Our Bodies”


O estudo da WeWorld — organização italiana independente ativa em 25 países com projetos de Cooperação para o Desenvolvimento e Ajuda Humanitária — lança luz sobre uma relação nem tão explorada em discussões: a degradação ambiental e a saúde reprodutiva.


A pesquisa analisou situações no Brasil, no Quênia e na Tanzânia em uma abordagem participativa que envolveu as comunidades locais em todas as etapas, mesmo com as circunstâncias regionais diversas.


A escassez de água, a insegurança alimentar e o colapso da infraestrutura não apenas ameaçam a sobrevivência, mas também comprometem a autonomia feminina sobre os próprios corpos, bem como seu acesso a serviços básicos de saúde.


No Ceará, comunidades indígenas enfrentam secas cada vez mais longas, que interrompem a agricultura de subsistência e rompem os laços históricos entre os povos e a terra . Mulheres relatam que a busca diária por água, que pode levar o dia inteiro, desvia tempo que poderia ser dedicado à saúde, e que as perdas nas colheitas levaram algumas famílias a apelarem à gravidez precoce como uma estratégia de sobrevivência econômica.


Nos condados de Narok, Isiolo e Kwale, no Quênia, os números são alarmantes: 85% das mulheres entrevistadas notaram mudanças climáticas evidentes, 91% relataram acesso reduzido a serviços de saúde, 89% sofreram impactos negativos na gravidez e 83% observaram uma piora na questão da dignidade menstrual. A infraestrutura danificada por enchentes e secas torna os centros de saúde inacessíveis, enquanto a insegurança alimentar, como relatado por 64% das mulheres, compromete a nutrição das mães.



O fardo dos “trabalhos invisíveis”



Um achado central da pesquisa refere-se à exacerbação do trabalho não remunerado feminino frente à escassez de recursos. Diante do esgotamento de fontes hídricas e de falhas nas colheitas, recai sobre as mulheres a responsabilidade de percorrer distâncias maiores e desenvolver estratégias alternativas de subsistência. Essa sobrecarga, caracterizada pela tripla jornada — que engloba as esferas doméstica, laboral e comunitária —, acarreta prejuízos severos à saúde física e mental dessa população.


Em Pemba, na Tanzânia, a crise climática impõe uma realidade dura às mulheres. Mesmo em estágios avançados de gestação, muitas continuam realizando trabalhos pesados, cenário agravado pela escassez de água: 58% têm dificuldade de acesso e 81% percorrem longas distâncias para buscá-la. A pressão econômica também remodela as famílias: enquanto algumas reduzem o número de filhos por necessidade, outras mantêm famílias numerosas devido à falta de planejamento familiar ou normas culturais. Em meio a esse cenário, porém, surgem redes informais de solidariedade feminina. Embora ainda frágeis em comunidades conservadoras, esses espaços tornaram-se vitais para o compartilhamento de experiências e busca por soluções coletivas.


A pesquisa, conduzida ao longo de nove meses, adotou uma abordagem feminista, decolonial e interseccional. Para garantir que a investigação refletisse as prioridades reais do território — em vez de imposições externas —, as equipes locais da WeWorld participaram ativamente de todas as etapas, desde a definição das perguntas até a coleta de dados via entrevistas e grupos focais.



Resultados do estudo




Como resultado, o estudo apresenta diretrizes claras aos doadores internacionais: é fundamental direcionar recursos diretamente a organizações lideradas por mulheres, priorizando financiamentos flexíveis e de longo prazo. Além disso, recomenda-se a integração de linhas de crédito específicas para Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos (SDSR) nos portfólios climáticos, reconhecendo-os como pilares essenciais da resiliência.


É imperativo que os governos incorporem a saúde sexual e reprodutiva nas estratégias nacionais de adaptação climática, institucionalizando a liderança feminina na governança ambiental. É necessário adotar marcos regulatórios baseados em direitos, que explicitem a interseção entre desigualdade de gênero, saúde e degradação ambiental. Para assegurar a efetividade desses compromissos, mecanismos de transparência — incluindo orçamentos sensíveis ao gênero — são indispensáveis.


A publicação deste estudo é estrategicamente oportuna. A COP30, em Belém, representa uma janela única para legitimar o papel das comunidades rurais e indígenas nas soluções climáticas. O fato de a conferência ocorrer no coração da Amazônia, onde mulheres indígenas atuam como guardiãs de ecossistemas críticos, confere ao evento um peso político e simbólico inestimável.


O documento vai muito além das estatísticas de sofrimento: ele ilumina a força da resistência local. As soluções comunitárias desafiam as respostas climáticas impostas de cima para baixo, mostrando que o verdadeiro conhecimento vem de quem vive o problema. Fica claro que as mulheres não são vítimas à espera de resgate, mas protagonistas da própria sobrevivência. O que as impede de fazer mais são barreiras injustas — falta de dinheiro, de voz e de poder. Derrubar esses obstáculos é a única forma de construir uma justiça climática que seja real e duradoura.


Comentários


bottom of page