O assento que incomoda: o que você precisa saber sobre Erika Hilton
- Hellica Miranda
- há 6 minutos
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Eleita para presidir a Comissão da Mulher, Erika Hilton vence a barreira conservadora e provoca polêmicas muito além de Brasília.

O fenômeno Erika Hilton: da marginalidade social à liderança partidária em Brasília
Nascida em 9 de dezembro de 1992, em Franco da Rocha, no estado de São Paulo, Erika Santos Silva, conhecida como Erika Hilton, cresceu em uma família evangélica. Sua adolescência foi marcada pelo conflito entre a identidade de gênero e o ambiente conservador em que vivia.
Aos 14 anos, devido à incompreensão familiar e o fundamentalismo religioso, Erika foi expulsa de casa.
Sem rede de apoio, Erika viveu em situação de rua e recorreu à prostituição para sobreviver por cerca de seis anos. Esse duro capítulo de sua história é frequentemente citado em seus discursos não como um tabu, mas como a prova de que o Estado brasileiro falha em proteger a juventude LGBTQIA+.
A virada em sua vida começou quando sua mãe a buscou para retomar o convívio familiar. Com isso, Erika voltou a estudar, ingressando na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), para cursar Pedagogia e Gerontologia.
Erika Hilton se tornou popular em 2015, após um incidente com uma empresa de ônibus que se recusou a imprimir seu nome social na passagem. Foi então que iniciou uma campanha on-line e uma batalha jurídica, vencendo o caso. Nessa situação, ela percebeu que sua existência individual era um ato político e que o sistema jurídico poderia ser “provocado” para garantir direitos.
O trabalho silencioso: legislando para além da própria bolha
A carreira parlamentar de Erika foi meteórica e marcada por recordes de votação. Ela estreou na política institucional como co-deputada estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), em um mandato coletivo pelo PSOL, em 2018.
Em 2020, candidatou-se individualmente à Câmara Municipal de São Paulo e tornou-se a mulher mais votada no Brasil no pleito, somando mais de 50 mil votos. Presidiu a primeira Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência Contra Pessoas Trans.
Apenas dois anos depois, em 2022, Erika Hilton foi eleita para o Congresso Nacional com uma votação expressiva de mais de 256 mil votos, consolidando-se como uma das principais vozes da esquerda paulista.
Ao chegar em Brasília, não se limitou a ser uma parlamentar “de nicho”, quebrando, em 2024, mais uma barreira, dessa vez ao ser escolhida como Líder da Bancada do PSOL na Câmara, tornando-se, então, a primeira mulher trans a liderar uma bancada partidária na história do país.
Entre seus eixos de atuação legislativa, destacam-se:
Direito das Mulheres:
Dignidade menstrual: atuação ativa na fiscalização e ampliação da distribuição de absorventes pelo SUS, visando combater a pobreza menstrual que afeta estudantes e mulheres de baixa renda.
Combate à violência política de gênero: propostas para endurecer punições contra ataques sofridos por mulheres em espaços de poder, garantindo que o exercício do mandato não seja cerceado por assédio moral ou físico.
Lei Maria da Penha para mulheres trans: defesa e articulação para que a proteção da Lei 11.340/2006 seja aplicada de forma explícita para mulheres trans, entendimento que Erika busca consolidar via legislação federal.
Igualdade salarial: coautoria e apoio a mecanismos de fiscalização para que empresas garantam o mesmo salário para homens e mulheres em funções idênticas.
Combate à fome e pobreza:
Cozinhas Solidárias: apoio direto e articulação para a institucionalização do Programa Cozinha Solidária, que oferece refeições gratuitas ou de baixo custo para populações vulneráveis.
Direitos da população de rua: Projeto de Lei que visa garantir o acesso a banheiros públicos, água potável e locais de higiene para pessoas em situação de vulnerabilidade extrema.
Empregabilidade para pessoas trans e egressos: projetos que incentivam empresas, por meio de benefícios fiscais ou cotas em contratos públicos, a contratar pessoas trans e travestis, visando retirá-las do ciclo da pobreza e da prostituição compulsória.
Direitos Humanos e Minorias:
Lei de cotas no serviço público: defesa da renovação e ampliação da Lei de Cotas, incluindo a reserva de vagas para pessoas trans em concursos públicos federais.
Enfrentamento à homofobia e transfobia: atuação constante visando que o crime de LGBTfobia — já equiparado ao racismo pelo STF — seja tipificado com maior clareza no Código Penal para facilitar a condenação de agressores.
Proteção de vítimas de discurso de ódio: projetos que buscam responsabilizar plataformas digitais e comunicadores pela disseminação de conteúdos que incitem violência contra minorias.
Saúde integral da população negra: propostas que almejam garantir que o SUS tenha protocolos específicos para doenças prevalentes na população negra e mecanismos de combate ao racismo institucional no atendimento médico.
Recentemente, ainda, Erika tornou-se a principal articuladora no Congresso da Proposta de Emenda à Constituição que aspira reduzir a jornada de trabalho semanal, sob o argumento de que a carga atual prejudica a saúde mental e a vida familiar da classe trabalhadora mais pobre.
Erika Hilton também propõe a criação de fundos específicos destinados ao acolhimento de jovens LGBTQIA+ que são expulsos de casa, replicando modelos de “Casas de Acolhimento” em nível nacional.
O choque de visões: a resistência da ala conservadora e a disputa pelo espaço institucional da Comissão da Mulher
A deputada federal Erika Hilton foi eleita no dia 11 de março, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, tornando-se a primeira mulher trans a assumir o cargo. A eleição ocorreu no segundo turno, com 11 votos a favor e 10 em branco, em um ambiente de forte disputa política.
Esta presidência não é apenas um nome, é o símbolo de uma democracia que se expande. A minha gestão tratará de todas as mulheres: das mães solo, das mulheres trabalhadoras, das mulheres negras, indígenas e das que lutam por sobrevivência e dignidade em todos os cantos deste país.
— Erika Hilton
A eleição de Erika para o cargo gerou forte polêmica a nível nacional, abalando, sobretudo, a classe conservadora, como o deputado federal Nikolas Ferreira, que tem articulado uma reação à sua vitória.
Nas redes sociais, o deputado do PL divulgou um abaixo-assinado que requere aos líderes dos partidos e ao presidente da Casa, Hugo Motta, que pressionem contra o que ele classificou como “escolha absurda” e que “fere os direitos das mulheres”.
O abaixo-assinado de Nikolas já reunia mais de 190 mil assinaturas dois dias depois da eleição de Erika, na sexta-feira, 13, e defende que haja representação política feminina e sob uma perspectiva que “não dilua a identidade biológica da mulher”, também versando sobre a perda de espaço feminino para homens em diversas esferas da sociedade contemporânea.

Ainda na quarta-feira, Erika Hilton postou em sua conta no X:
“Sim, sou Presidenta da Comissão da Mulher.
E o fato disso incomodar mais do que a onda de violência contra a mulher que assola nosso país diz muita coisa.
Pra essa gente incomodada, o que importa não é defender a vida das mulheres. É ofender o direito à vida das mulheres trans e travestis
Mas nós, mulheres trans, avançamos, conquistamos espaços e, nestes espaços, mostramos que somos plenamente capazes de dialogar e representar mulheres, mesmo as diferentes de nós. Pois o que nos une, o nosso desejo de vitórias e avanços para todas nós, é muito maior que nossas diferenças.
E, enquanto Presidenta, não permitirei que discursos que tentam nos dividir dominem essa Comissão que é de TODAS as mulheres.
Nessa Comissão, enfrentaremos a violência que nos aflige e lutaremos pelos direitos que são negados a todas nós, sempre respeitando cada forma de ser mulher em nossa sociedade.
Mas, se os conservadores estão incomodados agora, eles que se preparem.
Pois também falaremos sobre o direito de mulheres e meninas ao aborto e ao próprio corpo, enfrentaremos o crescimento do movimento red pill, desafiaremos as big techs e seu deep fakes e lutaremos, de cabeça erguida, sem vergonha alguma, contra a misoginia, a transfobia, a lesbofobia e tantas outras formas de violência praticadas contra nós, mulheres brasileiras.”
O caso Ratinho como símbolo da dificuldade em lidar com identidades trans e os limites da liberdade de expressão
Em seu programa na quarta-feira, após a eleição de Erika para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, o apresentador Ratinho, do SBT, questionou a vitória: “Não achei muito justo, não. Com tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans? A Erika Hilton. Ela não é mulher, ela é trans”.
Logo em seguida, Erika Hilton confirmou que processaria o apresentador e a emissora por transfobia.

Ela pede R$ 10 milhões em danos morais coletivos, investigação criminal e a suspensão do Programa do Ratinho no SBT por 30 dias.
O apresentador, por outro lado, negou o crime e acrescentou que acredita que “mulher tem que ter útero”, além de ter ameaçado processar quem o acusar de transfobia.
O Ministério Público Federal (MPF) do Rio Grande do Sul também agiu: entrou com ação cível e pediu indenização de R$10 milhões.
Em entrevista ao Estadão, o doutor em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (USP) Matheus Herren, declarou “O Ratinho tem falas ácidas em seu programa, brincadeiras de gosto discutível, mas acredito que ele está dentro do direito da crítica, bem no limite, mas dentro do limite. Se tivesse avançado para questões mais pessoais, ofensas, seria diferente”.
No entanto, crimes como homofobia e transfobia se baseiam, sobretudo, na intenção de ofender.
As polêmicas de Hilton

O mandato de Erika Hilton, embora marcado por um pioneirismo legislativo sem precedentes, não passou incólume ao escrutínio feroz que parece ser reservado apenas aos corpos dissidentes no poder.
Em meados de 2025, a deputada viu-se no centro de um turbilhão midiático com a contratação de Ronaldo Hass e Índy Montiel como assessores parlamentares. O ponto de ignição para a oposição foi o histórico profissional de ambos, ligados ao setor de estética e maquiagem. O que para o senso comum poderia ser uma escolha técnica de comunicação e imagem, para os críticos serviu de munição para uma narrativa de “frivolidade” e uso indevido de verba pública, tentando reduzir a estrutura de um gabinete político ao luxo pessoal.
A resposta de Erika, no entanto, seguiu sua linha habitual de enfrentamento direto. A parlamentar não recuou, classificando as acusações como uma tentativa de deslegitimar a competência de profissionais travestis e trans com base em estereótipos de classe e ocupação. Ela argumentou que a expertise em audiovisual e a articulação com comunidades periféricas eram as verdadeiras funções exercidas, acusando a extrema-direita de criar uma cortina de fumaça para esconder os avanços reais que o seu mandato vinha conquistando nas comissões.
Para Erika, o debate nunca foi sobre competência administrativa, mas sobre o desconforto que sua estética e sua rede de apoio causam nos corredores austeros de Brasília.
O desfecho do episódio revelou a resiliência estratégica da deputada. Apesar do barulho nas redes sociais e das tentativas de judicialização por parte de grupos conservadores, as investigações preliminares e os questionamentos internos não encontraram irregularidades que sustentassem uma cassação ou punição severa, já que a prerrogativa de nomeação para cargos de confiança é discricionária. Hilton saiu do episódio com a imagem de quem não se deixa intimidar, embora tenha reconhecido a necessidade de uma blindagem política ainda maior. O caso dos assessores acabou se tornando menos sobre maquiagem e mais sobre a “lupa” inquisitória que o sistema impõe a quem ousa colorir a cinzenta política brasileira.
A política de Brasília, historicamente acostumada a tons sóbrios e ternos opacos, entrou em curto-circuito diante do que convencionou-se chamar de “o closet de Hilton”. A polêmica em torno do uso de acessórios de luxo, como a bolsa de grife exibida em suas redes sociais, transcendeu a mera fofoca de celebridade para se tornar um debate sobre o direito à estética e à ascensão econômica de mulheres negras e trans.
Enquanto a oposição tentava pintar um cenário de desconexão com a base popular, Erika utilizou o episódio para questionar por que o consumo de uma mulher trans é lido como heresia, enquanto o patrimônio de seus pares brancos e cisgêneros raramente é pautado pela moralidade cristã.
Além das questões de imagem, o embate institucional atingiu seu ápice nas sessões da Comissão de Direitos Humanos, onde a deputada protagonizou discussões acaloradas que testaram os limites do decoro parlamentar.
Ao confrontar falas abertamente transfóbicas de parlamentares da ala ultraconservadora, Erika foi acusada de "agressividade", um rótulo frequentemente usado para silenciar vozes que não aceitam a subalternidade.
Esses episódios, que frequentemente resultam em representações no Conselho de Ética, revelam um padrão de violência política de gênero: o sistema tenta punir a parlamentar não pelo que ela faz, mas pela forma contundente com que ela exige o cumprimento da dignidade humana. O desfecho dessas polêmicas tem sido a reafirmação de Erika como uma barreira de contenção contra o retrocesso, transformando ataques em palanque para a educação em direitos civis.
O futuro político de Erika e o que sua presença representa para a democracia brasileira em tempos de polarização
A ascensão de Erika Hilton ao comando da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher não foi apenas mais uma etapa burocrática em sua carreira parlamentar, mas um divisor de águas para as instituições brasileiras. Ao se tornar a primeira mulher trans a presidir um colegiado de tamanha relevância, Erika deixou de ser uma “promessa da nova política” para se consolidar como uma peça central no tabuleiro do poder em Brasília.
O futuro político de Hilton aponta para uma expansão de sua influência para além do Legislativo. Pesquisas recentes, de agosto de 2025, já a posicionavam em 3º lugar nas intenções de voto para o Governo de São Paulo, um feito inédito para uma parlamentar de sua trajetória. Dentro do PSOL, seu nome é ventilado como a sucessora natural do espólio eleitoral de Guilherme Boulos, seja para disputar o Palácio dos Bandeirantes ou uma cadeira no Senado Federal.
Sua liderança na bancada PSOL-Rede mostrou que ela possui a estrutura necessária para negociar com o centro e enfrentar a direita, sem abrir mão das pautas que a elegeram, como a PEC do Fim da Escala 6x1 e projetos de proteção contra o transfeminicídio.
Em tempos de polarização extrema, a presença de Erika Hilton representa um teste de estresse para a democracia brasileira. Por um lado, ela é o alvo preferencial de uma ala conservadora que utiliza a “pauta de costumes” para testar os limites da liberdade de expressão — como visto nos recentes embates jurídicos com o apresentador Ratinho e deputados da oposição.
Por outro lado, sua atuação sinaliza uma democracia em expansão. Ela prova que o sistema democrático só é pleno quando permite que corpos historicamente empurrados para a marginalidade não apenas ocupem espaços, mas decidam sobre o orçamento, as leis e o futuro do país. Erika Hilton não legisla apenas para a comunidade LGBTQIA+, ela legisla sobre a dignidade do trabalho, o combate à fome e a ética na comunicação pública.
O que Erika Hilton representa hoje é a transição do “ativismo de denúncia” para o “ativismo de gestão”. Sua presença em Brasília força o Congresso a lidar com a pluralidade real do povo brasileiro, transformando o plenário em um espelho — às vezes desconfortável — da sociedade. Se a democracia brasileira sobreviver e se fortalecer em meio à atual polarização, será em grande parte porque figuras como Hilton insistiram que o direito à existência política é inegociável.
O futuro de Erika Hilton parece ser, portanto, o futuro da própria diversidade no poder: um caminho que, uma vez aberto, torna-se irreversível.
