No Sudão, violência sexual se torna uma arma em meio à guerra
- Pedro Natividade

- há 2 dias
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A instituição Médicos Sem Fronteiras relatou mais de 3000 vítimas de violência sexual no último ano em Dafur. Depoimentos de sobreviventes sobre os ataques também revelam foco em grupos étnicos específicos.

As Forças Paramilitares de Apoio Rápido (RSF) do Sudão e milícias aliadas estão usando violência sexual como "arma de guerra". Na região de Dafur, os abusos têm sido usados para controlar civis, informou a instituição Médicos Sem Fronteiras na terça-feira (31).
O exército sudanês e as RSF estão em um conflito brutal desde 2023, que já matou dezenas de milhares de pessoas. O confronto também deslocou mais de 11 milhões de pessoas e é marcado pela violência sexual generalizada.
Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, pelo menos 3.396 sobreviventes desses abusos buscaram tratamento em instalações apoiadas pela MSF. As vítimas, compostas por 97% de mulheres e meninas, tiveram que fugir para as regiões do norte e sul de Darfur, onde ficam essas instalações.
A MSF também identificou 732 sobreviventes de violência sexual em campos de deslocados entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano. Muitas eram agredidas e abusadas enquanto fugiam ou estavam dentro dos campos.
"Eles estavam em 4, e cada um me estuprou”
De acordo com a MSF em seu relatório, os números sãoapenas uma fração da escala real das atrocidades. A instituição documentou inúmeros depoimentos usando dados médicos que revelam a natureza deliberada da violência sexual em Darfur. Os sobreviventes "frequentemente e claramente" identificaram os responsáveis como combatentes das RSF, disse o relatório.
A violência sexual está sendo usada como arma de guerra e como meio sistemático de controle de civis, em violação ao direito internacional humanitário.
Depoimentos de 150 vítimas sobre os ataques das RSF realizados em abril, no campo de Zamzam, também indicam ataques com foco em grupos étnicos. O campo abrigou quase 500.000 pessoas, mas grande parte das vítimas eram da comunidade Zaghawa, não árabe. Uma das sobreviventes, de 28 anos, deu um relato forte sobre sua experiência.
Eles estavam em 4,e cada um me estuprou, enquanto alguns seguravam meus braços e outros minhas pernas.
Outras sobreviventes estavam em El-Fasher, no último reduto do exército nacional, que caiu em outubro de 2025 e onde a ONU relatou “atos de genocídio”.
Muitas mulheres descreveram ter sido agredidas longe da linha de frente enquanto realizavam suas atividades diárias: em estradas, fazendas, mercados e campos de deslocados. Outra sobrevivente, de 40 anos, contou sobre o que viveu em Jabel Marra.
Não há como parar os estupros. A única maneira é tentar ficar em casa e não sair tanto.
Ruth Kauffman, gerente de emergência de saúde da MSF, descreve a violência sexual como uma "característica definidora" do conflito que entra em seu quarto ano em abril.




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