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Você também sente inveja — e está tudo bem

  • Foto do escritor: Mariana Chagas
    Mariana Chagas
  • há 8 minutos
  • 4 min de leitura

Muitos buscam se proteger da inveja alheia. Mas e quando esse sentimento vem de dentro? Especialistas explicam o que significa e como lidar.



É normal sentir inveja?


Tomar um banho de sal grosso, carregar consigo um olho grego ou evitar contar suas metas antes de se concretizarem: existem diversas maneiras conhecidas para se blindar da inveja. São métodos milenares, de diferentes culturas, que ultrapassam gerações. Afinal, esse sentimento sempre foi motivo de medo e proteção. Mas e quando ele nasce dentro da gente?


Apesar de ser considerada prejudicial, a inveja faz parte do ser humano. É um sentimento comum, que pode ser experimentado por qualquer pessoa em diferentes fases da vida. Uma criança que se ressente de outra cujo brinquedo é maior, ou um adulto que fica chateado quando o colega de trabalho é promovido no seu lugar, compartilham a mesma sensação.


Mas a comparação não é de todo ruim. Ela surgiu há muito tempo, e tem uma grande relevância na história da humanidade.


Inveja: um método de sobrevivência


A inveja não acontece à toa. Ela ocupou um papel importante na evolução do ser humano, como explica Rafaeli Mazzarolo, psicóloga ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso). “Nosso cérebro tem duas principais funções, que são a reprodução e a sobrevivência. Como que a gente sobrevive numa sociedade com recursos escassos? Se comparando com o outro, como seres sociais”, conta.


A especialista recorda que os seres humanos sempre viveram em comunidade para conseguir sobreviver e, dentro desses grupos, a mente humana foi desenvolvendo mecanismos de evolução. “A inveja foi válida porque era importante a gente se comparar com o outro para entender até onde devemos ir e qual é o limite. Não teria limite se não houvesse uma comparação”, justifica.


O tempo foi passando e, atualmente, esse sentimento ganhou novas camadas. A inveja varia de acordo com o contexto social, a idade e outros fatores. “Mas, pensando evolutivamente, é interessante porque a gente olha para isso de uma maneira diferente, não daquela forma tão crítica, como algo completamente negativo que deve ser tirado do nosso repertório”, completa a psicóloga.


O que diz a psicologia sobre a inveja?


Existem algumas estratégias de comportamento que a inveja pode desencadear: ambição, ressentimento e raiva. A primeira se refere a desejar algo externo e, por conta da comparação, surge uma busca melhorar e conseguir o que o outro tem.


A inveja como submissão, por outro lado, parte do entendimento que a outra pessoa é melhor e não há nada a ser feito sobre isso. “Ou seja, eu aceito esse lugar, mas com uma aceitação resignada, desconfortável”, define Rafaeli.


Por fim, o terceiro caminho seria o da destruição. “É quando eu quero destruir o que o outro tem porque ele tem mais que eu”, explica a terapeuta. Cada forma de lidar representa um rumo diferente da inveja, mas todos nascem do mesmo lugar.


Como parar de se comparar


Para Rafaeli, quando somos tomados pela inveja é importante reconhecer e aceitar o sentimento para conseguir ir além dessas três respostas iniciais. A profissional aponta que a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) ajuda a acolher o que sentimos verdadeiramente. E, nesse caso, não é uma aceitação resignada, mas sim o entendimento dos caminhos possíveis e daquilo que precisa ser acolhido.


A escrita, segundo a especialista, é outra ferramenta que pode ser muito útil. “Porque às vezes, falando em voz alta, a gente sente vergonha e não se sente confortável. Escrevendo você coloca realidade ali, observa o que você pode ter de recurso para melhorar”.


Compreender a nossa realidade e a do outro é um passo importante. “A gente tem acesso hoje em dia a um grande gatilho de comparação que são as redes sociais. E às vezes eu vou me comparar com o recorte da vida de uma pessoa que eu acredito que tem a ver comigo, mas que não tem tanto a ver”, explica.


A psicóloga lembra que com frequência acabamos nos julgando apenas com base nos lados positivos de alguém, sem compreender o todo. “Às vezes estamos vendo o palco da vida de uma pessoa, mas não sabemos o que acontece nos bastidores”, exemplifica.


Aceitação e ressignificação da inveja


Apesar de ser algo natural, é importante lidar com a inveja sem cultivar ainda mais as comparações. Rafaeli aponta que, nesses momentos, o autoconhecimento, a autocompaixão e a gratidão são essenciais para fazer as pazes com a inveja e conseguir enxergar a nossa realidade de maneira positiva.


E o principal, segundo Rafaeli, é lembrar que a inveja não é algo a ser resolvido. “Eu gosto muito da frase do Steven Reiss, um dos criadores da ACT, que fala que a vida é uma experiência a ser vivida, não algo a ser resolvido. Existe uma tendência de retirar ou entender um sentimento, e acabamos entrando numa hiper racionalização. Mas, muitas vezes, só é preciso aceitar que é parte da nossa vida, né?”, finaliza.


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