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2026 é o novo 2016: o que explica a nossa vontade de voltar no tempo?

  • Foto do escritor: Mariana Chagas
    Mariana Chagas
  • há 7 dias
  • 5 min de leitura

Especialistas apontam que a pandemia de Covid-19 e conflitos mundiais nos fazem ter vontade de reviver momentos mais leves.


Maísa Silva em post no Instagram.
Maísa Silva em post no Instagram.

Se você anda vendo fotos de 2016 rolando no seu feed, não é à toa. Na internet, viralizou uma frase dizendo que 2026 seria o novo 2016 e a tendência tem se espalhado entre usuários, famosos e até o Instagram, que entrou na onda e postou uma imagem do filtro “Rio de Janeiro”, um sucesso do aplicativo na época.


Publicação compartilhada pelo perfil oficial do Instagram.
Publicação compartilhada pelo perfil oficial do Instagram.

Com a passagem de uma década, muitos têm sentido, mais do que nunca, uma forte nostalgia pelo ano que foi tão marcante, quando uma estética mais descontraída, animada e leve rondava a internet. 


No cinema, a estreia de Capitão América: Guerra Civil, bateu recordes em vários países. Na música, grandes lançamentos marcariam para sempre a indústria, como o lançamento de ANTI, da Rihanna e Lemonade, da Beyoncé. No Brasil, Marília Mendonça, Anitta e

Ludmilla viviam momentos marcantes da carreira. 


Marília Mendonça, Anitta e Ludmilla em fotos de 2016.
Marília Mendonça, Anitta e Ludmilla em fotos de 2016.

Mundialmente, muitos acontecimentos de 2016 moldariam os próximos anos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e o Brexit no Reino Unido. Além disso, o Brasil vivia as Olimpíadas no Rio de Janeiro e o processo de impeachment de Dilma Rousseff.


Por que voltar para 2016?


Com tantos eventos, 2016 foi um ano que ficou marcado na memória de muitas pessoas. A sociedade, que já tem essa tendência de revisitar o passado, começou a enxergar esse momento como um período não apenas importante, mas também o reflexo de tempos mais divertidos.


Eu acho que foi o último suspiro que a gente teve de uma vida mais simples, sabe?” explica Bruna Roriz, estrategista de marca e especialista em cool hunting. “A internet tirou muito disso da gente por conta da comparação, essa coisa de querer provar que está sempre bem e tudo mais. Em 2016, o Instagram tinha três, quatro anos de popularidade. A gente registrava momentos para ficar ali, não só para passar 24 horas e tal”.


Para a especialista, a chegada dessa trend revela uma vontade de tentar resgatar um estilo de vida mais leve e um momento que a internet, o Brasil e o mundo eram diferentes. 


Depois de anos marcados por uma pandemia, polarização política e conflitos mundiais que parecem estar cada vez mais próximos, por conta da crescente da hiperconectividade, a reação natural é querer fugir. 


O mundo ficou muito pesado depois de 2020”, completa Bruna. “A gente não vê as coisas mais do mesmo jeito, eu acho que nunca mais vai conseguir. Porque todo mundo entendeu que tudo está fora do nosso controle, mais do que a gente imaginava”. E o passado, onde a realidade era outra, surge como uma ilusão de algo mais seguro.


A busca pela leveza


O ano de 2016, como qualquer outro, também teve momentos conflituosos e complexos. Mas após uma década, o distanciamento nos faz enxergar o passado com outros olhos.


Maria Izabel, psicóloga histórico-cultural, pesquisadora e mestranda na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), conta que existe um fenômeno muito comum dentro da memória que é o viés da positividade. Se trata de olhar para algo marcante do passado de uma forma muito positiva, ignorando as partes ruins.


Isso aparece às vezes nos términos, inclusive. Quando acaba um relacionamento e a tendência é que o indivíduo fique se lembrando cada vez mais daquelas coisas boas e acabe se esquecendo até dos motivos que o levaram a terminar”, exemplifica.


Não apenas nas relações, esse processo também acontece quando recordamos experiências pessoais, em uma inclinação de olhar para o passado com um “óculos cor-de-rosa”. Isso nos leva a sentir falta de pessoas que passaram pela nossa vida, de uma época específica ou até mesmo de um contexto histórico.


2016 estava acontecendo antes da pandemia, né? O contexto histórico e político era diferente, o contexto das próprias redes era muito diferente. A gente estava ali numa ascensão do Snapchat e de outras redes sociais muito voltadas para brincadeira, para o lúdico”, conta a profissional.


Pokémon GO foi o aplicativo mais baixado no mundo em 2016.
Pokémon GO foi o aplicativo mais baixado no mundo em 2016.


Medo do futuro, descrença no presente



A nostalgia — e a saudade do passado — nasce de um descontentamento do presente, mas também da insegurança que sentimos referente ao futuro. “Tem a questão de que o que vem a seguir, a gente desconhece. Eu não sei como vai ser o futuro, se vai ser bom ou ruim. O que eu tenho como referência é o passado, e se eu olho para esse passado de uma forma romântica, carinhosa e saudosista, eu vou querer que ele volte”, observa Maria.


Vale ressaltar que essa trend viralizou principalmente entre a Geração Z e os Millennials, em especial porque essas pessoas estavam em fases distintas do crescer. Muitos ainda eram crianças, adolescentes ou jovens adultos e lidavam com menos responsabilidades. 


A ansiedade de viver, tanto em um contexto histórico quanto em um momento de vida mais complexo, é o que impulsiona a vontade de retornar a 2016. “A gente está passando por várias questões que criam uma tensão, coletiva e individual, e a partir dessa instrumentalização, que é quase como um mecanismo de sobrevivência, a gente passa a usar a internet para lidar com isso, para se alienar, mesmo que de forma inconsciente”, diz Maria.


Para a profissional, essa tendência também reflete um sintoma de uma sociedade que vem adoecendo. “Diante dessa dor, a gente olha para o passado com vontade de voltar. Só que a gente não consegue”, recorda.



O que esperar para 2026?



Não há como voltar para 2016, mas o passado, principalmente em momentos de nostalgia, molda muito o que vivemos no presente. Bruna destaca algumas tendências que podemos esperar para 2026, baseado nessa saudade coletiva e outras influências. 

Já posso adiantar que vai ter muito essa estética feia. Meme sem sentido, tipo aquelas contas Saquinho de Lixo, e Melted Videos”, exemplifica.


Outro movimento, que já vem aparecendo no design gráfico e, segundo a especialista, está chegando com mais força para vestimenta, é a chamada “dopamine dressing”, ou “se vestir com dopamina”, em tradução literal. “Usar roxo com amarelo, colocar bom humor nas coisas simples”.


E a procura por diversão vai além do vestuário. “A gente já está começando a criar uns rituais de mais capricho e coisas mais voltadas para o bem-estar. Claro que a gente ainda quer compartilhar, mas é para a gente que a gente faz no final, sabe?”, comenta Bruna.


Segundo a profissional, essas tendências surgem graças ao desejo de viver momentos mais descontraídos. “Está todo mundo não se levando mais tanto a sério. Eu acho que chegou num ponto tão extremo, isso de perfeição e performance, que cada um quer mostrar o seu lado que ninguém mais tem porque é único”, finaliza.




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