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Do pecado ao divino: como Nanda Tsunami inverte a lógica religiosa no rap

  • Foto do escritor: Mariana Chagas
    Mariana Chagas
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Por muito tempo, o prazer das mulheres foi considerado profano. Nanda Tsunami muda esse discurso, unindo sexualidade feminina e espiritualidade.



A força que o rap feminino vem ganhando nos últimos anos tem transformado a cena do hip hop em um espaço para discutir questões antes colocadas em segundo plano. Quando ocupam o protagonismo, mulheres emplacam nas paradas músicas sobre sexualidade, dominando a narrativa sobre seus corpos. Mas a nova ascensão do gênero, Nanda Tsunami aprofunda ainda mais esse debate: além de se colocar à frente da própria narrativa sexual, ela fala da sua relação com o corpo e com o prazer como algo divino.


A perspectiva trazida pela Nanda inverte um discurso religioso que, há muito tempo, vilaniza a sexualidade feminina e a transforma em “pecado”. Conhecer, explorar e dar prazer ao corpo foi transformado em algo pecaminoso, muito por conta das religiões cristãs que dominam o pensamento brasileiro desde a colonização. Nas músicas de Nanda, porém, essa visão é invertida — aqui, o profano vira sagrado.


Nanda Tsunami fazendo acontecer


Com mais de 3 milhões de ouvintes mensais no Spotify, Nanda Tsunami se consolidou como uma das maiores artistas da cena. A cantora está na lineup de grandes festivais, como o Batekoo, principal festival e plataforma de cultura, educação e entretenimento negro do Brasil, e entrou no radar do Spotify, descrita como “a aposta certa para você ouvir em 2025”.



Foi durante a pandemia que Nanda começou a investir na carreira, como conta em entrevista para a Rolling Stone. Um passo essencial para tirar as rimas do papel e construir algo sólido foi fortalecer, antes de tudo, sua autoestima. Era preciso acreditar que tinha potencial de ocupar um espaço no meio artístico.


Para a cantora, dois pilares foram fundamentais para o desenvolvimento da autoestima: suas vivências pessoais e, principalmente, sua espiritualidade. Ela relata que sua habilidade de expressar as coisas de forma criativa é muito ligada ao seu lado espiritual.


Mas a relação com o religioso não impacta apenas na criatividade da cantora. As crenças de Nanda são temas amplamente pautados nas músicas, sendo algo visceral na sua formação como pessoa. Elas englobam tudo, inclusive sua sexualidade, e assim nasce um contra-discurso que faz tão única sua forma de cantar sobre o corpo feminino.


Prazer: do profano ao sagrado


“Meu prazer é precioso

Então eu me liberto de todas as ideias de apego

De toda a culpa que possa me desviar

Do meu sagrado prazer”


Em Preciosa, Interlúdio de Tsunami Season, a rapper canta sobre seu prazer como algo divino. Na reza, ela ora para que possa ter acesso a ele sem carregar culpa ou outras emoções que a afastam desse momento.


Nanda continua: “Eu atraio homens que / São tão seguros da sua masculinidade / No ponto que eu não precise / Me envergonhar / Do meu direito sagrado / De receber e oferecer prazer.” 


A cantora não apenas reconhece a importância de cultuar sua sexualidade, como sabe do peso que o seu prazer carrega, marcado pela culpa, vergonha e medo. Ao pedir para se afastar dessas emoções, ela inverte um pensamento construído justamente no mesmo lugar de onde agora parte essa mudança: a religião.


No podcast Estúdio Aberto Com Nanda Tsunami Ep. 4, do AF!RMA, Nanda conta que frequenta uma casa universalista. “Isso significa que ela trabalha com vários tipos de energia, de egrégoras”, explicou a cantora. Nesses centros religiosos, se cultuam diferentes dogmas e crenças, acreditando que todas são caminhos para se aproximar do sagrado.



Religião e outros fatores que impactam na sexualidade


A sexualidade não é apenas biológica. Além do corpo, ela é profundamente moldada por fatores sociais. Quem explica isso é Luciano Gomes dos Santos, professor de Ciências Sociais do UniArnaldo Centro Universitário, de Belo Horizonte. “Cultura, família, escola, mídia, religião e normas jurídicas influenciam a maneira como cada pessoa aprende a compreender seu corpo, seus desejos e seus limites”, aponta.


Segundo o professor, é ainda na infância que começamos a receber mensagens diferentes sobre o que é aceitável, vergonhoso ou desejável. Essas informações fomentam sentimentos de orgulho, culpa ou silêncio que sentimos em relação ao nosso corpo.

A forma como a sexualidade é enxergada varia de acordo com cada cultura e sociedade. “O historiador das ideias Michel Foucault demonstrou que, ao longo dos séculos, o Ocidente não simplesmente reprimiu o sexo, mas passou a regulá-lo por meio de discursos médicos, religiosos e jurídicos. Ou seja, a sexualidade tornou-se um campo de controle social.”


E, para atingir tal controle, a religião teve papel central. Ela ajudou a formar códigos morais que organizaram o que é considerado puro ou impuro. O especialista explica que, dependendo da forma como são internalizados, esses códigos podem tanto oferecer sentido e proteção quanto gerar culpa ou repressão.


Sexo feminino e o pecado original


Para mulheres, o buraco foi ainda mais baixo. “Autoras como Simone de Beauvoir analisaram como a mulher foi historicamente definida a partir do olhar masculino, inclusive no campo religioso. Isso contribuiu para que muitas internalizassem padrões de julgamento moral mais rigorosos sobre si mesmas do que os aplicados aos homens.”


Lívia Carvalho, bispa, mestra em ciências da religião e teóloga, também evidencia como se deu esse fenômeno. Ela aponta que o cristianismo, e os chamados Pais da Igreja, têm muita responsabilidade sobre essa construção do corpo feminino como pecaminoso no ideal ocidental.


Eu acho que o primeiro ponto problemático da teologia, que ocorreu muitos anos atrás, foi quando começaram a associar o pecado original com algo sexual. E aí colocar toda a culpa em Eva”, destaca a teóloga, autora da obra “Hermenêutica Restauradora do Corpo”, que também discute gênero, corpo e espiritualidade.


Impactos desse pensamento ecoam até hoje

Para exemplificar como se deu essa concepção, Lívia cita um trecho de Tertuliano sobre Eva, escritor cristão conhecido como pai da teologia latina:


"Tu és o portal do Diabo. Tu és o primeiro desertor da Lei divina. Tu és aquela que persuadiu a quem o Diabo não foi bastante corajoso para atacar. Tu destruíste tão facilmente o homem, imagem de Deus. Por causa de tua falta, que é morte, o próprio Filho de Deus teve que morrer.”


Com esse tipo de teologia enraizado no começo da história, como você não associar a imagem da mulher à culpa, como não associar a imagem da mulher à lascívia, pecaminosa, menor que o homem?”, questiona a especialista.


Tertuliano foi um dos iniciadores da doutrina eclesiástica e um dos apologistas latinos do século II. Ele fez parte dos chamados Pais da Igreja, teólogos e líderes cristãos que moldaram a doutrina e fé cristãs entre os séculos II e VII. Estes foram essenciais para fundamentar conceitos, como a Trindade.


Além disso, na religião cristã, historicamente, existe uma dicotomia: corpo é uma coisa, alma é outra. Na hierarquia, a alma é superior ao corpo. “Os pais da igreja vão associar isso a papéis de gênero, onde o homem é igual à alma, superior, puro e perto de Deus, e a mulher é igual ao corpo, ou seja, pecaminoso e corrompido”, elucida a bispa.


Mesmo antigos, esses pensamentos ecoam ainda hoje: no ódio à mulher, na misoginia e em movimentos decorrentes, como o Red Pill. “Você perpetua isso no imaginário social durante séculos, durante centenas de anos. Como a mulher vai conseguir olhar para o seu corpo e se amar se seu corpo não é nem parecido com Deus?”, questiona.


Eva e Maria: quando prazer e pureza viram opostos


Dois importantes arquétipos na cultura cristã ocidental são Eva e Maria. De acordo com Luciano, enquanto Eva foi associada à tentação e à desobediência, Maria foi ligada à pureza e à obediência absoluta.


Esse dualismo influenciou expectativas sociais: a mulher ideal deveria ser recatada, materna e controlada. Já aquela que expressasse desejo poderia ser vista como moralmente suspeita. Tal divisão atravessou literatura, arte e legislação”, completa o professor.


Não apenas virgem, Maria também é mãe, moldando o imaginário “perfeito” dentro do que foi imposto pela religião. “Ela conseguiu o ato máximo do que é considerado mulher, entre muitas aspas, que é ser mãe e ainda ser virgem. Ou seja, ela não se contaminou com pecado, sabe?”, explica a teóloga.


Lívia conta que foi durante o século XIX que a imagem de Maria se fortaleceu e a mulher passou a ser vista como alguém sem libido, casta. Essas imagens bíblicas propagam-se até os dias atuais, influenciando o surgimento de outras personagens que também ajudam nessa divisão.


Luciana do Rocio Mallon, professora de Literatura e História, cita exemplos na cultura que reforçam tal ideal. “Na novela mexicana A Usurpadora, a antagonista Paola é desbravada, infiel, vaidosa e narcisista. Por outro lado, a personagem Paulina é recatada, comportada e meiga”, cita a profissional.

Música e espiritualidade como empoderamento

Se a sexualidade é moldada por diferentes influências, a cultura, por meio da música, também tem o poder de influenciar como nos entendemos e enxergamos nossos corpos.


Movimentos feministas e debates contemporâneos têm ampliado espaços de diálogo sobre autonomia corporal. Hoje, muitas mulheres reinterpretam tradições religiosas de maneira mais integrada, buscando conciliar espiritualidade e liberdade”, explica o professor Luciano.


Dessa maneira, Nanda se apropria da espiritualidade para levar tantas mulheres a fazer as pazes com o próprio corpo. Um grande exemplo é a capa de seu EP Tsunami Season, repleta de referências visuais que dialogam com a ideia de sagrado, religiosidade e sexualidade.




A imagem, assinada pela designer e diretora de arte Mayra Martins, é a releitura de uma importante obra renascentista, a pintura “O Nascimento de Vênus.” Na imagem, o corpo feminino, por tanto tempo condenado pela religião, ocupa um espaço celestial e sagrado. 


O mesmo acontece em suas músicas. Nanda constantemente rima sobre si como algo tocado pelo divino e fortalecido pela sua espiritualidade, mostrando que é possível unir religião e liberdade sexual. Afinal, quando enxergamos que o corpo das mulheres também é fruto de algo sagrado, seu prazer deixa de ser pecado para ocupar um espaço celestial.

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