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A política entrou no entretenimento agora ou sempre esteve lá?

  • Foto do escritor: Letícia Parodi
    Letícia Parodi
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

A arte nunca foi neutra. De Chaplin a Barbie, veja como a política sempre moldou o entretenimento e por que isso só incomoda agora. 



Sempre que um filme, uma série ou uma música provoca debate político, surge a mesma reclamação: “estão politizando tudo”. Como se o entretenimento tivesse vivido, até ontem, em um espaço neutro, imune às disputas de poder, às ideologias e às tensões sociais. Mas a pergunta que raramente fazemos é outra: a política realmente entrou no entretenimento agora, ou sempre esteve ali, apenas mudando de forma?


A resposta talvez seja desconfortável: a política nunca chegou. Ela sempre morou ali.


Muito antes de Hollywood, o teatro grego já colocava no palco dilemas coletivos: tirania, justiça, obediência às leis, conflitos entre indivíduo e Estado. A arte nasce como forma de narrar, e toda narrativa carrega uma visão de mundo.


No século XX, isso se torna impossível de ignorar. ‘O Grande Ditador’, de Charlie Chaplin, satirizou

o nazismo em plena ascensão de Hitler. Não era apenas entretenimento: era posicionamento. O mesmo vale para a literatura distópica de ‘1984’, de George Orwell, que usa ficção para denunciar vigilância, autoritarismo e manipulação da verdade.


Cena de ‘O Grande Ditador’, de 1940
Cena de ‘O Grande Ditador’, de 1940

Até mesmo universos aparentemente escapistas carregam política no DNA. Star Wars, com seus

sabres de luz e galáxias distantes, nasce como metáfora sobre impérios, colonialismo e resistência. A

política não está escondida, apenas vem disfarçada de fantasia.


Cena do discurso do Chanceler Palpatine no Senado Galáctico, um momento crucial em ‘Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith’ (2005)
Cena do discurso do Chanceler Palpatine no Senado Galáctico, um momento crucial em ‘Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith’ (2005)

Ocorre que, nem toda política, no entretenimento, é contestadora. Muitas vezes, ela serve para reforçar o sistema.


Durante a Segunda Guerra Mundial, Hollywood produziu filmes alinhados aos interesses do governo americano. Décadas depois, ‘Top Gun’ ajudou a reconstruir a imagem das Forças Armadas dos EUA após o trauma do Vietnã, transformando guerra em espetáculo heroico.


Top Gun - Ases Indomáveis (1986)
Top Gun - Ases Indomáveis (1986)

Esses exemplos mostram que o entretenimento nunca foi neutro, apenas parecia confortável

quando concordava com a narrativa dominante. A ausência de incômodo não significava ausência de

política, mas alinhamento silencioso.


Se há um território onde a política jamais saiu de cena, é a música. Bob Dylan virou símbolo do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. No Brasil, Chico Buarque enfrentou a censura da ditadura militar com metáforas afiadas, provando que, quando a palavra é proibida, a arte aprende a falar

por códigos.


Chico Buarque na Passeata dos Cem Mil, contra a Ditadura Militar, em 26 de junho de 1968
Chico Buarque na Passeata dos Cem Mil, contra a Ditadura Militar, em 26 de junho de 1968

Bandas como Rage Against the Machine tornaram explícito aquilo que antes vinha velado: críticas ao capitalismo, ao imperialismo e à violência estatal. A política não estava ausente, ela apenas oscilava

entre o sussurro e o grito.


‘Killing in the name’, crítica do Rage Against the Machine à violência estatal e ao racismo institucional nas forças policiais

O que diferencia o presente não é a presença da política, mas sua exposição constante. Filmes como ‘Barbie’ colocam debates sobre feminismo, trabalho e consumo no centro da cultura pop. Séries como ‘The Handmaid's Tale’ extrapolam a tela e viram símbolo de protestos reais.


Barbie
Barbie (2023)

As redes sociais aceleraram tudo. Consumir entretenimento virou também tomar posição. O público debate, cancela, defende, ataca. Hoje, não é apenas a obra que é política, a recepção dela também é.


Talvez o incômodo atual venha menos da politização do entretenimento e mais do fato de que novas vozes passaram a falar. Quando a arte questiona privilégios antes invisíveis, ela deixa de parecer neutra. Mas a neutralidade, na maioria das vezes, era só silêncio conveniente.


O entretenimento só parece político quando deixa de confirmar nossas certezas. Quando passa a

confrontá-las. A política não invadiu o entretenimento. Ela sempre esteve ali, nos roteiros, nas entrelinhas, nas

melodias, nos finais felizes que escolhem quem merece vencer. O que mudou foi o público, mais atento, mais dividido, mais disposto a disputar sentidos. No fim, talvez a pergunta certa não seja “por que tudo ficou político?”, mas sim: por que só agora estamos percebendo?








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