A política entrou no entretenimento agora ou sempre esteve lá?
- Letícia Parodi

- há 6 dias
- 3 min de leitura
A arte nunca foi neutra. De Chaplin a Barbie, veja como a política sempre moldou o entretenimento e por que isso só incomoda agora.

Sempre que um filme, uma série ou uma música provoca debate político, surge a mesma reclamação: “estão politizando tudo”. Como se o entretenimento tivesse vivido, até ontem, em um espaço neutro, imune às disputas de poder, às ideologias e às tensões sociais. Mas a pergunta que raramente fazemos é outra: a política realmente entrou no entretenimento agora, ou sempre esteve ali, apenas mudando de forma?
A resposta talvez seja desconfortável: a política nunca chegou. Ela sempre morou ali.
Muito antes de Hollywood, o teatro grego já colocava no palco dilemas coletivos: tirania, justiça, obediência às leis, conflitos entre indivíduo e Estado. A arte nasce como forma de narrar, e toda narrativa carrega uma visão de mundo.
No século XX, isso se torna impossível de ignorar. ‘O Grande Ditador’, de Charlie Chaplin, satirizou
o nazismo em plena ascensão de Hitler. Não era apenas entretenimento: era posicionamento. O mesmo vale para a literatura distópica de ‘1984’, de George Orwell, que usa ficção para denunciar vigilância, autoritarismo e manipulação da verdade.

Até mesmo universos aparentemente escapistas carregam política no DNA. Star Wars, com seus
sabres de luz e galáxias distantes, nasce como metáfora sobre impérios, colonialismo e resistência. A
política não está escondida, apenas vem disfarçada de fantasia.

Ocorre que, nem toda política, no entretenimento, é contestadora. Muitas vezes, ela serve para reforçar o sistema.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Hollywood produziu filmes alinhados aos interesses do governo americano. Décadas depois, ‘Top Gun’ ajudou a reconstruir a imagem das Forças Armadas dos EUA após o trauma do Vietnã, transformando guerra em espetáculo heroico.

Esses exemplos mostram que o entretenimento nunca foi neutro, apenas parecia confortável
quando concordava com a narrativa dominante. A ausência de incômodo não significava ausência de
política, mas alinhamento silencioso.
Se há um território onde a política jamais saiu de cena, é a música. Bob Dylan virou símbolo do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. No Brasil, Chico Buarque enfrentou a censura da ditadura militar com metáforas afiadas, provando que, quando a palavra é proibida, a arte aprende a falar
por códigos.

Bandas como Rage Against the Machine tornaram explícito aquilo que antes vinha velado: críticas ao capitalismo, ao imperialismo e à violência estatal. A política não estava ausente, ela apenas oscilava
entre o sussurro e o grito.
O que diferencia o presente não é a presença da política, mas sua exposição constante. Filmes como ‘Barbie’ colocam debates sobre feminismo, trabalho e consumo no centro da cultura pop. Séries como ‘The Handmaid's Tale’ extrapolam a tela e viram símbolo de protestos reais.

As redes sociais aceleraram tudo. Consumir entretenimento virou também tomar posição. O público debate, cancela, defende, ataca. Hoje, não é apenas a obra que é política, a recepção dela também é.
Talvez o incômodo atual venha menos da politização do entretenimento e mais do fato de que novas vozes passaram a falar. Quando a arte questiona privilégios antes invisíveis, ela deixa de parecer neutra. Mas a neutralidade, na maioria das vezes, era só silêncio conveniente.
O entretenimento só parece político quando deixa de confirmar nossas certezas. Quando passa a
confrontá-las. A política não invadiu o entretenimento. Ela sempre esteve ali, nos roteiros, nas entrelinhas, nas
melodias, nos finais felizes que escolhem quem merece vencer. O que mudou foi o público, mais atento, mais dividido, mais disposto a disputar sentidos. No fim, talvez a pergunta certa não seja “por que tudo ficou político?”, mas sim: por que só agora estamos percebendo?




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