O que está por trás do fenômeno “romantasia”?
- Hellica Miranda e Mariana Chagas

- há 2 dias
- 6 min de leitura
Febre entre o público leitor mais jovem, novo gênero explora novos universos fantásticos e relacionamentos intensos.

Histórias movidas por amor e magia. Essa é a premissa do gênero literário “romantasia”, que está dominando as prateleiras desde a popularidade dos livros de Sarah J. Maas, uma das precursoras. Desde então, essas obras têm crescido rapidamente na comunidade de leitores on-line, o BookTok, e se tornado sucesso de vendas ao redor do mundo.
O nome “Romantasia” é autoexplicativo. Nessas obras, romance e fantasia andam lado a lado e um não consegue existir sem o outro. O worldbuilding (construção do mundo) acontece em simultâneo com o desenvolvimento do casal principal, e a premissa da trama parte do relacionamento dos protagonistas e suas motivações mágicas.
Contexto da popularidade
O público jovem nunca leu tanto romance. Dados do Wattpad revelam que, embora a Geração Z explore gêneros diversos como Ficção Científica e Terror, o Romance continua sendo o favorito absoluto, seguido de perto pela Fantasia. Essa combinação explosiva deu origem ao “Romantasy” (“Romantasia”, em português), subgênero que dominou os rankings literários em 2023.
O impacto é visível nos números: as vendas de livros de romance saltaram 52% no último ano. Mas o que realmente chama a atenção é a mudança no perfil de quem lê:
Público mais jovem: Se, há uma década, o gênero era dominado por mulheres entre 35 e 54 anos, hoje o interesse começa por volta dos 18.
O fator digital: Essa renovação do público tem um culpado óbvio — as redes sociais. Comunidades no TikTok e Instagram transformaram a leitura em um evento viral, conectando jovens leitoras a tramas que unem o escapismo da fantasia à intensidade emocional do romance.
A popularidade não vem apenas do texto, mas da experiência como um todo, inclusive a visual: no TikTok e Instagram, os livros de Romantasia são tratados como objetos de desejo (capas duras, edições limitadas com pinturas laterais).
As redes sociais não somente recomendam o livro, criam uma estética (“aesthetic”). Vídeos com trilhas sonoras épicas e colagens visuais que capturam a vibe da história permitem que os leitores — geralmente do público feminino — se sintam parte daquele universo antes mesmo de abrir a primeira página.
O algoritmo do TikTok (onde reside o BookTok) atua como um curador personalizado, criando comunidades de nicho onde o entusiasmo por um lançamento se torna global em questão de horas.
Psicólogos e analistas de mercado apontam que o sucesso da Romantasia reside no escapismo absoluto.
Em um mundo pós-pandemia e marcado por instabilidades políticas e climáticas, a Geração Z busca universos onde os problemas são épicos, mas as resoluções — e os sentimentos — são intensos e claros. É o equilíbrio perfeito entre o impossível (dragões, magia, reinos) e o universal (o desejo de conexão e amor).
Além disso, diferente dos romances de época mais tradicionais, a Romantasia costuma focar em protagonistas que detêm poder político e/ou mágico. Isso reflete uma mudança de narrativa: as protagonistas femininas não estão ali apenas para serem salvas. Elas são guerreiras, rainhas ou rebeldes que precisam aprender a controlar seus próprios poderes enquanto lidam com tensões românticas. Essa autonomia ressoa diretamente com as pautas de representatividade e força feminina que a Geração Z valoriza.
Também cabe destacar que a Romantasia raramente se limita a um livro único. A estrutura em séries longas cria uma espécie de dependência saudável, permitindo que a leitora acompanhe o amadurecimento dos personagens por anos. Isso gera um engajamento contínuo nas redes sociais, com teorias, fanarts e discussões que mantêm a obra viva por muito mais tempo do que um lançamento literário comum.
Um exemplo disso tudo são os livros do universo dos Caçadores de Sombras (Shadowhunters), da autora estadunidense Cassandra Clare.

Considerados um dos pilares modernos do que hoje chamamos de Romantasia, embora, na época de seu primeiro lançamento, “Cidade dos Ossos” (2007), o termo ainda não estivesse na moda, os livros são o perfeito exemplo do equilíbrio de gêneros: a trama política do Mundo das Sombras, as batalhas contra demônios e a mitologia dos Nephilim têm o mesmo peso — ou, às vezes, menor — que os triângulos amorosos, as tensões românticas e o desenvolvimento dos relacionamentos.
De fato, Clare pode ser considerada uma das “mães” da Romantasia, uma vez que as bem-sucedidas autoras da atualidade, como Sarah J. Maas (de “Corte de Espinhos e Rosas”) ou Rebecca Yarros (“Quarta Asa”), começaram justamente lendo seus livros.
Relações atuais e a busca pelo amor romântico nos livros

Muito se fala sobre as “relações líquidas” das gerações atuais. O termo, desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, descreve a natureza dos vínculos humanos na sociedade contemporânea, mas não se restringe a relacionamentos.
“Não são só as relações que estão líquidas. A vida, de modo geral, mudou muito de configuração nos últimos 30 anos”, explica Frederico Mattos, psicólogo clínico há mais de 20 anos e autor de Maturidade emocional. “A gente teve uma mudança de perspectiva cronológica; a nossa relação com o tempo mudou.”
Segundo o especialista, a chegada de novas tecnologias e plataformas fez com que as distâncias que pareciam grandes encurtassem e, ao mesmo tempo, tudo ficou mais rápido. Algo que demorava um mês, passou a demorar uma semana, depois minutos.
“Esse senso de urgência também foi fazendo com que as pessoas percebessem as relações com esse senso de utilidade, e é daí que surge ‘o líquido’ das relações, porque é como se as relações tivessem que me servir para alguma coisa”, aponta o psicólogo.
Os livros de romance surgem, retomando as ideias agora antigas de relacionamento e lealdade de uma vida inteira, florescendo o mito do amor romântico. “É como se fosse um contraste ao utilitarismo, porque nesse utilitarismo as pessoas me servem, mas no romance épico é como se eu servisse a uma grande causa.”
E essa sensação de diluição do senso de identidade por uma causa superior não é algo novo, nem oriundo do gênero romantasia. “Romeu e Julieta, de alguma maneira, já apontava nessa direção. O amor do casal é visto como tão mais elevado do que essas coisas dos Montéquios e Capuletos que os personagens são capazes de morrer por esse amor”.
A Romantasia, portanto, se torna uma forma de acessar esse amor lendário, ao mesmo tempo em que mergulha no mundo da fantasia, sempre guiada por fortes princípios e valores. “É como se as pessoas tivessem buscando uma dimensão espiritual das relações para se sentirem menos usadas, menos usando, e a fantasia coloca a pessoa nesse mundo, um lugar aconchegante, emocionalmente quentinho, que vai fazer com que a gente sinta que a vida pode ser boa nas relações”.
Romantasia no Brasil
A De Mulher Para o Mundo entrevistou Babi A. Sette, autora best-seller e uma das vozes mais influentes do Romance no Brasil na atualidade.
Babi é autora de “Coração de Gelo e Rosas”, sua estreia na Romantasia, lançado em novembro de 2025, e de outros romances de sucesso, como “Senhorita Aurora” e “Sapatilhas de Gelo”.
A trajetória de Babi reflete exatamente o movimento do mercado: ela começou, em 2014, com o romance de época (que tem uma base de fãs muito sólida entre mulheres de 25-45 anos), passou pelo romance contemporâneo (atraindo o público que ama "tropos" modernos) e agora desembarca na Romantasia com “Coração de Gelo e Rosas”, capturando justamente a fatia de mercado que se inicia na faixa dos 18 anos.

Babi conta que sempre gostou de escrever: na infância, fazia pequenos livros desenhados e grampeados. “Eu só demorei para entender como eu colocaria esse amor pela escrita no mundo, como eu traria esse amor ao mundo”.
Babi chegou a cursar Comunicação Social, mas percebeu que sua paixão estava na escrita. A partir daí, decidiu por Publicidade, pensando em usar sua paixão em redação publicitária, e acabou trabalhando com marketing por muito tempo.
No entanto, ao se deparar com um romance de época na livraria, tudo mudou. “Eu tenho muito essa sensação, que eu não peguei nada, foi o livro que me pegou, porque quando eu peguei ele, eu falei: ‘Esse livro vai mudar minha vida’”.
O livro em questão era “Aprendendo a Seduzir”, escrito por Meg Cabot (“O Diário da Princesa”) sob o pseudônimo de Patricia Cabot, e foi um pontapé para Babi, que, após sua leitura, completou outros 140 livros lidos naquele ano.
Tive muita influência do meu pai, meu pai sempre leu muito para mim. Ele lia muito contos de fadas e isso me tornou uma apaixonada por contos de fadas desde criança. “Ele é apaixonado por Fantasia e, desde que eu embarquei no mundo da Fantasia, não só como autora, mas como leitora, que foi alguns anos antes de começar a sonhar em escrever fantasia.
— Babi A. Sette
“Coração de Gelo e Rosas” conta a história de Briana, uma jovem assombrada por visões e lembranças de um mundo de conto de fadas. Ela busca respostas nas pesquisas de seu doutorado, caminho que a leva até Ian Ferner, seu novo orientador, um homem cuja fachada até esconde sua natureza de segredos e cicatrizes profundas.
Juntos, Briana e Ian se conectam a um reino oculto dos humanos, Alfehim.




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