top of page

Carnaval, beijo entre mulheres e a liberdade que só dura quatro dias

  • Momento Romasex
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Uma reflexão sobre a liberdade no Carnaval e o questionamento sobre a sexualidade livre que só dura um feriado.


Bora se preparar pro Carnaval? Sempre penso nessa data com muito amor e respeito, porque pra mim o Carnaval representa o respiro de alegria do povo brasileiro que sobrevive ao caos e o capitalismo. O Carnaval sempre foi esse território simbólico onde as regras do cotidiano ficam, ainda que temporariamente, suspensas. É quando o corpo ganha licença, o desejo perde o freio e a curiosidade deixa de ser pecado. Para muitas mulheres, é justamente nesse espaço de exceção que surge a coragem de experimentar o que, no resto do ano, é silenciado pelo medo do julgamento como beijar outra mulher, flertar sem rótulos ou simplesmente sentir sem a obrigação de explicar. Já ouvi inúmeras vezes “tô com saudade de beijar mulheres ainda bem que o carnaval tá chegando”; esses dias ouvi de um homem, “sou hétero, mas em tal festa beijo vários caras”. Já pensaram que isso faz parte da heteronormatividade?


Não é que o desejo nasça no Carnaval; ele já estava ali. O que muda é o cenário, e quando as cortinas se abrem a gente se permite viver outras coisas, porque ali sou um personagem, se alguém ver ou falar tá tudo bem, “era carnaval”.


A heteronormatividade está tão presente no nosso dia a dia que impõe caminhos “certos” para amar, desejar e se comportar. Ela dita que mulheres devem querer homens, amar homens e que o resto é só curiosidade, é só na festinha, é só no carnaval, é no sigilo, quando ninguém vê. Contenha-se, cubra-se, feche as pernas, fale baixo, não seja grossa, não fale palavrão, não beba muito.... até nossa risada é controlada, quem ri demais tá desesperada por homem, se oferecendo (já ouvi tanto isso, não tenho culpa de ter 32 dentes expostos quando sorrio rs). No Carnaval, porém, essa estrutura se afrouxa.


Talvez o maior convite que o Carnaval nos faça não seja apenas à folia, mas à escuta interna. Ao perceber o quanto precisamos de uma data específica para nos permitir certas experiências, fica evidente o peso das normas que nos atravessam o ano inteiro. Que a liberdade experimentada nesses dias não precise ser devolvida junto com a fantasia. Que possamos levar para a quarta-feira de cinzas a coragem de questionar a heteronormatividade, de respeitar nossos desejos e de entender que se permitir não deveria ser um ato extraordinário — mas um direito cotidiano.


A pensadora feminista Bell Hooks denunciou aquilo que chamou de heterossexualidade obrigatória: a ideia de que ser hetero não é apenas uma orientação possível, mas a única aceitável, natural e socialmente validada. Nesse sistema, o corpo feminino vira território público. A heteronormatividade transforma mulheres em objetos disponíveis — inclusive para o entretenimento masculino. Não por acaso, o beijo entre mulheres é amplamente aceito quando serve ao fetiche, ao espetáculo ou à “brincadeira” carnavalesca. O problema começa quando esse desejo deixa de ser performático e passa a ser real.


Ainda sobre Bell Hooks, que propôs uma ideia potente de “queer” que vai muito além de rótulos de orientação sexual. Para ela, ser queer é "estar em desacordo com o mundo como ele é", é ocupar uma posição de resistência diante das regras que tentam nos dizer como amar, desejar e existir. Nesse sentido, o beijo entre mulheres não é apenas sobre desejo — é sobre liberdade.


Quando falamos de sexualidade feminina, não estamos falando só de sexo — estamos falando de autonomia. De poder escolher quem se deseja, quando e por quê, sem precisar pedir licença ou se esconder atrás de datas comemorativas.


E talvez a pergunta que o Carnaval nos deixa seja essa:

Por que quando eu beijo meninos e meninas só penso em terminar a noite com eles?


Liberdade que só dura quatro dias não é liberdade. É concessão.


E concessão nunca foi revolução.

 
 
 

Comentários


bottom of page