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Elas leem, eles escrevem: a desigualdade na literatura brasileira

  • Foto do escritor: Estefane S. Worst
    Estefane S. Worst
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

Somente 27% dos escritores no Brasil são mulheres. Isso acontece porque, por muito tempo, elas foram impossibilitadas ou desencorajadas a publicarem.



O próprio início do mercado editorial brasileiro foi desencorajado por Portugal, que pretendia controlar a sua colônia de todas as formas. 


Por isso, é difícil especificar quando foi publicado o primeiro livro no Brasil. Acredita-se que “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga, publicado em 1810, tenha sido o primeiro livro de ficção impresso oficialmente no Brasil. Mas pesquisadores apontam que um texto escrito em 1695, chamado “A Relação da Entrada”, sobre uma campanha militar para desmantelar o Quilombo dos Palmares, seja o precursor de todos os tipos de publicações no Brasil colônia. 


Capa do primeiro livro publicado oficialmente no Brasil, que leva no título o nome de uma mulher, mesmo sendo escrito por um homem.
Capa do primeiro livro publicado oficialmente no Brasil, que leva no título o nome de uma mulher, mesmo sendo escrito por um homem.

Naquela época, o que faltava para a publicação de livros por brasileiros e brasileiras em solo nacional eram as tipografias. Problema este que foi resolvido com a transferência do governo Imperial para o Brasil, criando a imprensa régia em 1808. Logo depois, mesmo que ainda desincentivadas pela sociedade, temos os primeiros textos publicados por mulheres.


Prensa de tipos móveis, como usada no Brasil nesta época.
Prensa de tipos móveis, como usada no Brasil nesta época.

Anteriormente à chegada da imprensa régia ao Brasil, tivemos, no ano de 1752, em Portugal, a publicação da paulista Teresa Margarida da Silva e Orta, considerada a primeira mulher romancista em língua portuguesa. Ela publicou seu livro, “Aventuras de Diófanes”, na metrópole, sendo a primeira escritora nascida no Brasil, mas não publicada em terras nacionais.


Assim, o pioneirismo da primeira publicação por uma mulher no Brasil é de Maria Clemência da Silveira Sampaio. A autora vivia na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Onde ocorreu em 1822, um baile para homenagear D. Pedro I, em que ela declamou versos, que no ano seguinte foram editados no Rio de Janeiro. 


Porém a publicação de um romance por uma mulher no Brasil só veio a acontecer em 1859. Quando Maria Firmina dos Reis, com seu livro “Úrsula”, rompe de vez  com o silenciamento imposto às vozes femininas. 



Apesar da demora do surgimento de uma romancista brasileira, Maria Firmina vem para representar não só as mulheres, mas também os negros, que, naquela época ainda eram escravizados no Brasil. A autora é filha de mãe branca e pai negro, tendo nascido em São Luís, capital do Maranhão, em 11 de março de 1822. Assim, a primeira romancista do brasil é uma mulher negra com obras que discutem a escravidão, dando pela primeira vez no país voz aos escravizados.

Sendo ela, então, precursora não só como escritora mulher e negra, mas também por tratar da escravidão em um período que a escrita era predominantemente realizada por homens brancos que não tocavam neste assunto.


Podemos notar uma grande distância entre as primeiras publicações por homens e por mulheres. Isso aconteceu porque elas eram  impossibilitadas ou desencorajadas a se instruírem e principalmente a publicarem no passado. 


Mas essa questão não acabou após a primeira publicação por uma mulher: ela continua impactando no mercado literário brasileiro até hoje. Tivemos, sim, avanços, mas, apesar de mais mulheres serem leitoras que homens e lerem a mesma quantidade de livros que eles, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, ainda são a minoria enquanto autoras.


Segundo pesquisa da Universidade de Brasília (UNB), 72,7% dos escritores do Brasil são homens e somente 27% são mulheres. Ainda sobre o perfil dos escritores brasileiros, além de homens, eles têm em média 50 anos, moram no Eixo Rio-São Paulo, são brancos e têm ensino superior, o que demonstra que a perspectiva da literatura nacional ainda se mantém muito limitada a uma certa população.


Com essa diferença no número de publicações por mulheres, não é difícil imaginar que elas são menos conhecidas que os homens. Ainda segundo a pesquisa Retratos da Literatura, dos 15 autores mais conhecidos pelos leitores brasileiros, somente 4 são mulheres. Já dentre os 15 autores que os leitores mais gostam, 6 são mulheres e, quando perguntados qual foi o último autor de literatura lido, somente 5 dos 14 mais citados são mulheres.


Sobre os personagens dos livros lançados no brasil, segundo a pesquisa da UNB, 62,1% dos personagens principais são do sexo masculino. E, em obras de autores masculinos, apenas 32,1% de todos os personagens das histórias são mulheres. E, dentre elas, 88,9% têm alguma relação familiar com o protagonista homem, como cônjuge ou filha. E 25,1% são donas de casa.


Capitu, uma das personagens mais icônicas da literatura brasileira, se encaixa na descrição acima, tendo uma relação romântica com o protagonista e se tornando dona de casa.


Outra barreira na representatividade é a baixa quantidade de personagens não-brancos. De acordo com a mesma pesquisa da Universidade de Brasília, em mais da metade dos romances analisados não existe sequer um personagem não-branco e apenas 7,9% dos personagens em geral são negros, quase nunca como protagonistas. Dentro desses, em 73,5% dos casos eles são pobres e em 20,4% são personificados como bandidos.


O protagonista de “O mulato” de Aluísio de Azevedo é um desses poucos personagens que fogem à regra, sendo o protagonista da história, tendo posses e não ser personificado como bandido.


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