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Do Oscar aos palcos: por que o sucesso da cultura latina melhora como você se vê

  • Foto do escritor: Mariana Chagas
    Mariana Chagas
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Entenda como a valorização da identidade nacional impacta a autoestima e promove esperança.



2026 é um ano e tanto


A vinda do Bad Bunny para o Brasil, as indicações de ‘O Agente Secreto’ ao Oscar e até a espera ansiosa pelo resultado das eleições: 2026 está sendo um ano em que pensamos constantemente sobre nossa nacionalidade. Seja positiva ou negativamente, a maneira como nos relacionamos com o nosso território e cultura consegue impactar a forma como nos enxergamos.


Antes de construirmos nossa subjetividade, já temos uma bagagem cheia de características por conta da nossa nacionalidade. Uma língua materna, comidas típicas, um jeito de se vestir e de se colocar no mundo. Sendo uma parte tão intrínseca de quem somos, não é possível entender nossa constituição individual sem levar em conta a influência de onde viemos.


Somos seres sociais


O meio em que nascemos e nos desenvolvemos tem um impacto muito forte na maneira como vamos nos enxergar e entender o mundo. Assim explica Mariana Souza, doutoranda em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).


Vigotski tem uma frase que diz: é através dos outros que nós nos tornamos nós mesmos. Então, nós nos construímos por meio da coletividade”, aponta a pesquisadora, citando o psicólogo proponente da Psicologia histórico-cultural, Lev Semionovitch Vigotski.


Segundo a especialista, é nas relações sociais que o ser humano se constrói. “Primeiro, o nosso desenvolvimento acontece no social, para depois a gente poder internalizar esses aspectos do social na nossa construção subjetiva.”


Dessa maneira, diversos agentes, como nossa cultura, língua e território, influenciam nosso desenvolvimento e moldam como vemos a nós mesmos e o mundo ao nosso redor. Quem complementa esse pensamento é Gabriela Pontes, psicóloga histórico-cultural. “Para a gente construir a nossa subjetividade interna, a gente precisa ter essas relações sociais, ter essas vivências tanto com a língua quanto com tudo ao nosso redor”, informa.


Orgulho da própria nação


Se nossa nacionalidade implica diretamente na construção da nossa identidade, a forma como interpretamos o território onde nascemos também pode impactar na autoestima individual. “Não existe essa dicotomia entre o mundo interno e o mundo externo. Nessa concepção, nós somos produtos de uma certa cultura”, argumenta Gabriela.


Um estudo que elucida essa influência é a pesquisa “Perception of threat and national identity: Investigation of the mediating role of collective self esteem” (em tradução livre: Percepção de ameaça e identidade nacional: Investigação do papel mediador da autoestima coletiva), realizada pelos departamentos de psicologia da Universidade Padjadjaran (Unpad) e da Universidade de Bina Nusantara (BINUS), na Indonésia. 


Os pesquisadores apontam que a identidade nacional é frequentemente associada à autoestima coletiva. “A autoestima desempenha um papel importante na vida dos indivíduos, tanto no âmbito pessoal quanto no contexto de sua pertença a grupos sociais. Infere-se que o desejo humano de autoexpressão e a necessidade de estar em evidência — que constituem parte de certos aspectos do eu — surgem da inserção em um grupo e do compartilhamento de sentimentos coletivos”.


Dessa maneira, sentimentos compartilhados entre um grupo são inevitáveis, considerando a realidade comum do conceito psicossocial de identidade nacional e autoestima coletiva. “Pertencer a grupos sociais é fundamental para promover uma identidade positiva. Quando a identidade social de um indivíduo é estabelecida, ele frequentemente se esforça para mantê-la ou para aumentar sua autoestima; busca um autoconceito positivo por meio de comparações entre grupos”, justifica o estudo.


Impacto da cultura na forma como enxergamos


Os shows do Bad Bunny no Brasil, nos dias 20 e 21 de fevereiro, causaram grande comoção. O artista trouxe a Debí Tirar Más Fotos World Tour para o estádio Allianz Parque, em São Paulo, após ganhar o primeiro Grammy de Álbum do Ano dado para um disco totalmente cantado em espanhol.

Sua apresentação no Super Bowl também deu o que falar nas redes. Muitos comentários sobre os elementos latinos usados na apresentação ressaltaram a importância de enaltecer a cultura do continente.


Além disso, a presença de artistas internacionais no carnaval, como Shawn Mendes e Calvin Harris, e as quatro indicações de ‘O Agente Secreto’ ao Oscar ajudaram a fortalecer o espírito nacionalista em muitos brasileiros — e essa comoção não é à toa. 


A representatividade positiva do país e do continente de origem no exterior é capaz de trazer impactos reais no emocional da sua população. Ao saber que um “outro” enxerga e valoriza o “eu”, sentimentos de valorização afloram. “Como é importante que outras pessoas reconheçam o seu trabalho, sua forma, porque essa influência de outra pessoa faz com que você perceba o que realmente você está fazendo”, explica Mariana.


Representatividade gera esperança


Além disso, ver elementos da sua cultura em cima do palco de um dos principais eventos esportivos do mundo ou concorrendo ao prêmio mais importante do cinema gera sentimentos não apenas de orgulho, mas também de esperança.


A representatividade faz com que a gente também pense nas possibilidades. A gente enche as nossas esperanças”, declara Mariana. A especialista aponta que isso vai de encontro com uma das principais discussões da psicologia histórico-cultural: a importância da possibilidade de imaginar o futuro. 


A gente não fica só no presente, pensando ‘a minha vida vai ser isso mesmo, o Brasil é ruim, não tem tantas coisas boas como outros países’. Quando você vê pessoas na telinha, você imagina projetos de futuro, vê que outras pessoas podem chegar nesses espaços e você também”, justifica.


Segundo Mariana, isso acontece porque a cultura é um dos campos que mais auxiliam no nosso desenvolvimento. “Quando a gente amplia esse repertório, consequentemente ele vai ampliar nossas possibilidades de desenvolvimento”, finaliza.


Ao olhar para as particularidades da cultura latina e brasileira com orgulho, inevitavelmente carregamos essa autoestima para nossa identidade pessoal. Quando nos sentimos bem com nossas origens, naturalmente passamos a nos sentir bem conosco mesmos.

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