E se a gente curtir o caminho e não a chegada?
- Momento Romasex

- há 18 horas
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O que o sexo tem a ver com política?

A gente foi ensinada que sexo é uma linha reta.
Começa no beijo, acelera nas preliminares — como se o próprio nome já denunciasse que elas importam menos —, culmina no orgasmo e termina quando alguém goza. Existe um roteiro. Existe uma meta. Existe um troféu.
Mas e se o orgasmo não for o destino mais interessante?
Tenho pensado que passamos tempo demais perseguindo o clímax e tempo de menos habitando o caminho. O desejo. A curiosidade. A entrega. A verdade. A segurança. Porque, ironicamente, o orgasmo quase sempre chega quando a gente para de correr atrás dele.
Ninguém relaxa sob cobrança.
Ninguém floresce sendo avaliada.
O corpo não é uma máquina de desempenho. Ele responde ao afeto, ao cuidado, à confiança. O orgasmo é menos um prêmio e mais uma consequência de um corpo que se sente seguro para existir.
Talvez por isso o amor — e aqui falo de amor em todas as suas formas — seja uma experiência ao mesmo tempo partilhada e profundamente individual. O encontro acontece entre dois ou mais corpos, mas a travessia é sempre íntima. Cada pessoa chega com sua história, seus medos, seus limites, seus desejos e as marcas que o mundo deixou sobre sua pele.
E se a gente descentralizasse o genital?
Se quebrássemos o roteiro?
Nem todo olhar penetrante precisa terminar em penetração. Nem toda intimidade precisa obedecer à lógica da performance. Talvez a pele inteira seja nossa maior zona erógena. Talvez o sexo aconteça antes do toque. Talvez aconteça na conversa, na escuta, no consentimento, no riso, no silêncio confortável.
Performar outras performances. Formar outras formas.
Inventar maneiras de sentir que não reproduzam, automaticamente, aquilo que nos disseram que era sexo.
Esses dias me peguei refletindo sobre o quanto minhas preferências sexuais dizem sobre mim. Eu aceitando isso ou não. Porque a cis-heteronormatividade não é um instinto: é uma programação. É uma entrada de dados repetida desde a infância. Uma estrutura que organiza desejos, distribui privilégios e define quem pode desejar, quem pode ser desejada e de que maneira.
É uma lógica tóxica. Violenta.
E não adianta colecionar experiências sexuais se eu não estiver disposta a refletir sobre gênero, raça, classe, LGBTfobia, gordofobia, etarismo e capacitismo. Não existe sexualidade completamente livre quando nossos desejos continuam atravessados pelas mesmas opressões que organizam a sociedade.
A forma como escolho olhar para o outro, desejar o outro e ocupar meu próprio corpo também é política.
Responsabilizar-se por isso é político.
Porque o corpo nunca esteve separado do mundo.
E, com as eleições se aproximando, talvez valha lembrar que essa responsabilidade também chega até a urna. As leis que regulam nossos direitos reprodutivos, nossa autonomia, nossa segurança e nossa liberdade sexual são feitas por pessoas eleitas.
Se queremos construir um mundo onde nossos corpos pertençam apenas a nós, faz sentido ampliar quem ocupa os espaços de poder. Mulheres, pessoas trans e pessoas não binárias historicamente tiveram menos acesso a esses espaços e, justamente por isso, sua presença amplia perspectivas que muitas vezes ficaram de fora das decisões públicas.
Nosso voto também escreve histórias sobre os corpos que queremos proteger.
Porque ninguém deveria acreditar que tem domínio sobre o corpo de outra pessoa.
Nem na cama.
Nem na política.




Buscar novas formas de sentir, ajuda no exercício da quebra do normativo, e relacionar a conduta pessoal com a conduta política faz todo sentido, pois como seres sociais, defendemos diversas existências no ato do voto. Mais uma vez, provocativa e instigante.
Relacionar o nosso voto como quem escreve histórias sobre os corpos que queremos proteger com corpos livres da opressão é muito interessante e inteligente e nos convida a reflexões profundas. Parabéns 👏👏👏