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Ninguém tá puro: bissexualidade, desejo e o direito de não caber em uma caixinha

Foto do escritor: Momento Romasex
Momento Romasex
há 6 horas
6 min de leitura

Uma reflexão sobre a fluidez dos afetos, a desconstrução de estereótipos e a urgência de viver a bissexualidade fora dos rótulos impostos pela sociedade.



Estamos no mês da visibilidade bissexual e, curiosamente, a frase que mais repeti nos últimos tempos foi: “Ninguém tá puro.”


Ela apareceu em podcasts, nas redes sociais, conversas e, principalmente, nas mensagens que recebi depois de falar sobre bissexualidade no podcast. Mas, antes de explicar o que essa frase significa para mim, preciso contar uma coisa: este mês eu mergulhei ainda mais nesse assunto. Pesquisei o que as pessoas estavam discutindo, acompanhei conversas em grupos e percebi que algumas questões continuam aparecendo com muita força.


Uma delas é a necessidade de medir a bissexualidade.

Quanto você gosta de homens? Quanto você gosta de mulheres? Você já ficou com quantas pessoas de cada gênero? Você se sente mais atraída por quem? Afinal, quão bi você é?


É impressionante como existe uma vontade constante de criar uma régua para medir o desejo alheio. Como se a pessoa precisasse apresentar provas suficientes para ocupar o lugar de bissexual. Como se sentir atração por mais de um gênero não fosse suficiente.

Quem inventou a régua do quanto alguém é bi?

Uma das coisas que mais apareceram nas conversas que tive sobre bissexualidade foi justamente essa necessidade de medir.


“Eu sou só um pouquinho bi.”


“Eu sempre gostei de homens, mas às vezes fico com mulheres.”


“Eu sou bi de festinha.”


“Eu sou bi de carnaval.”


“Eu só me permito quando estou em determinado ambiente, sou bi curiosa.”


Como se existisse um bi “de verdade” e um bi pela metade.


Como se fosse necessário gostar de homens e mulheres na mesma proporção. Como se fosse preciso ter vivido determinada quantidade de experiências para conquistar o direito de usar a palavra bissexual.


Mas quem criou essa régua? Pouco bi ou muito bi continua sendo bi.


Você não precisa gostar de homens e mulheres na mesma intensidade. Não precisa ter ficado com a mesma quantidade de pessoas de cada gênero. Não precisa ter tido relacionamentos com ambos. Não precisa estar se relacionando com alguém do mesmo gênero neste momento. 


E também não precisa provar nada para ninguém.

A sexualidade não é uma prova de matemática. Não existe uma porcentagem mínima de atração que você precisa atingir para pertencer a uma orientação.

Talvez uma das maiores violências da invisibilidade bissexual seja justamente essa: fazer com que a própria pessoa desconfie de si.


“Será que eu sou bi mesmo?”


“Será que é só curiosidade?”


“Será que é só porque eu gosto de experimentar?”


“Será que eu sou bi o suficiente?”


E talvez a pergunta pudesse ser outra:


Por que precisamos tanto de uma régua para medir o desejo?


Se você se reconhece como bissexual, sua experiência não precisa passar pela aprovação de ninguém.


Você pode ser uma pessoa que sempre se relacionou majoritariamente com homens e também sentir atração por mulheres. Pode ser o contrário. Pode ter experiências diferentes ao longo da vida. Pode passar anos sem se relacionar com determinado gênero.

Nada disso precisa diminuir a sua identidade. Porque bissexualidade não é uma competição para descobrir quem é “mais bi”. 


É uma possibilidade de existência.


E talvez esteja na hora de parar de perguntar “o quanto bi você é?” e começar a perguntar por que a gente ainda acha que precisa medir o desejo das pessoas para acreditar nelas. Foi justamente nesse lugar que comecei a entender ainda mais a questão da invisibilidade bissexual.


A pessoa bissexual muitas vezes é colocada em um não lugar. Para algumas pessoas, ela não é hétero o suficiente. Para outras, não é LGBTQIAPN+ o suficiente. Se está em um relacionamento com alguém do gênero oposto, passa a ser vista como hétero. Se está com alguém do mesmo gênero, sua bissexualidade pode ser questionada ou tratada como uma fase. 


O engajamento dos cortes do podcast falando no assunto geraram muitas conversas nos grupos. Recebi mensagens de homens que me contaram, no privado, que eram bissexuais. Alguns disseram que já tinham descoberto isso há muito tempo. Outros compartilharam experiências que nunca tinham contado publicamente.


E eu ficava pensando e as vezes falava: “Que legal, amigo! Mas comenta lá no feed também!”. Ao mesmo tempo, comecei a refletir sobre essa necessidade de tornar pública a nossa sexualidade. 


Por que precisamos dizer com quem nos relacionamos?


Por que o desejo de alguém parece ser uma informação tão importante para que as pessoas saibam como tratá-la?


Por que, quando conhecemos alguém, uma das primeiras curiosidades é saber de quem essa pessoa gosta?


Será que não poderíamos nos interessar mais por quem as pessoas são, pelo que pensam, pelo que sentem, pelo que constroem, e menos por aquilo que desejam sexual ou afetivamente?


É claro que falar sobre sexualidade é importante. A visibilidade bissexual é necessária porque ainda existe preconceito, apagamento e falta de compreensão sobre essa orientação. Mas também precisamos questionar por que a sociedade transforma o desejo em um marcador tão determinante da nossa identidade e do nosso lugar no mundo.


Se uma pessoa deseja algo que eu não desejo, isso deveria ser suficiente para que eu deixasse de reconhecê-la como alguém digno de respeito? Se ela se relaciona de uma maneira diferente da minha, isso muda o valor que ela tem?


É nesse ponto que a discussão sobre bissexualidade também encontra a heteronormatividade.


Aprendemos, desde muito cedo, que o caminho esperado é gostar de alguém do gênero oposto, construir um relacionamento monogâmico, formar uma família e seguir um modelo que parece natural, mas que é, em grande parte, aprendido e reforçado socialmente.


Eu aprendi a ser heterossexual.


Aprendi por meio das referências que recebi, das histórias de amor que consumi, das expectativas que colocaram sobre mim e das possibilidades que me apresentaram como se fossem as únicas.


Isso não significa que toda pessoa heterossexual seja, na verdade, bissexual. Significa que precisamos refletir sobre o quanto a sociedade influencia a maneira como compreendemos nossos desejos e sobre o quanto determinadas possibilidades são incentivadas enquanto outras são silenciadas.


E essa reflexão não precisa ser uma ameaça. Pode ser apenas uma oportunidade de olhar para nós mesmos com mais liberdade.


Neste mês, também recebi feedbacks que me emocionaram.


Mulheres me contaram que foram a festas, beijaram outras mulheres e descobriram que gostaram muito da experiência. Algumas disseram que queriam viver aquilo novamente. Outras compartilharam que começaram a se permitir sentir e experimentar coisas que antes não consideravam possíveis.


Recebi até o relato de uma pessoa que colocou, pela primeira vez, em sua apresentação, que era bissexual.


Essas mensagens me fizeram pensar no quanto a informação, a conversa e a representatividade podem abrir portas. Não porque alguém precise experimentar determinada coisa para descobrir quem é, mas porque conhecer outras possibilidades pode ajudar muitas pessoas a compreenderem melhor os próprios desejos.


E talvez seja essa a grande potência da visibilidade: mostrar que existem outras formas de sentir, amar e construir relações. Que ninguém precisa seguir um único roteiro. Que não existe uma maneira correta de viver a sexualidade.


A questão não é descobrir quem é “puro” ou quem não é. A questão é entender por que ainda precisamos classificar tanto as pessoas.


Por que a heterossexualidade continua sendo tratada como o padrão?


Por que casais heterossexuais são tão facilmente reconhecidos como família, enquanto outras configurações precisam explicar sua existência?


Por que ainda existe tanta cobrança sobre o desejo das mulheres e tanta vigilância sobre a sexualidade dos homens que não correspondem ao modelo tradicional de masculinidade?


Essas perguntas também atravessam a política, a cultura e as estruturas sociais que organizam nossas vidas. A forma como diferentes famílias, orientações sexuais e identidades são representadas nos espaços de poder importa porque influencia quais demandas são ouvidas, quais direitos são discutidos e quais experiências são consideradas legítimas.


Por isso, falar sobre bissexualidade não é falar apenas sobre quem beija quem. É falar sobre liberdade, reconhecimento, autonomia e sobre o direito de cada pessoa construir sua própria história.


E, no fim, talvez “ninguém tá puro” seja justamente um convite para a gente parar de tentar controlar o desejo dos outros.


Que a gente possa olhar menos para as caixinhas e mais para as pessoas.


Que possamos respeitar as diferentes formas de amar, desejar e se relacionar.


Que a visibilidade bissexual não seja apenas uma pauta de setembro, mas uma oportunidade permanente de questionar os padrões que ainda limitam nossas possibilidades.


E que a gente também reflita sobre a importância da representação e da participação política de pessoas diversas, incluindo mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, para que mais vozes possam estar presentes nas decisões que afetam nossas vidas.


Porque, no fim das contas, a vida de ninguém deveria ser definida apenas por quem ela deseja.


E talvez seja justamente esse o ponto:

ninguém tá puro — e ninguém deveria precisar estar.

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