Sincero ou sincericida?
- Momento Romasex

- há 23 horas
- 4 min de leitura
Um papo sincero sobre o excesso de sinceridade.

Existe uma diferença enorme entre ser sincero e ser sincericida. E talvez esteja na hora de falarmos mais sobre isso.
Vivemos em uma cultura em que as pessoas acreditam que toda opinião precisa ser dita. Como se pensar algo automaticamente desse o direito de verbalizar. Não dá.
Ainda existe uma necessidade quase automática de comentar sobre a aparência das pessoas.
"Você emagreceu!"
"Você engordou."
"O seu cabelo estava melhor antes."
"Nossa, agora ficou lindo."
"Você parece cansada."
"Você está com cara de saudável."
A pergunta é: para quê?
Quando a gente reduz uma pessoa ao corpo, ao cabelo, ao peso ou à aparência, deixa de enxergar tudo o que realmente importa. E o mais curioso é que quase nunca sabemos a história por trás daquela mudança.
A pessoa emagreceu porque finalmente conseguiu criar uma rotina saudável... ou porque está vivendo uma depressão profunda.
Engordou porque está feliz, porque mudou a medicação, porque engravidou, porque está tratando um transtorno alimentar... ou simplesmente porque o corpo dela mudou.
Você não sabe. E, justamente por não saber, talvez a melhor escolha seja não comentar.
Recentemente levei esse assunto para os meus stories e fiquei impressionada com a quantidade de respostas. Muitas, mas muitas pessoas disseram que os comentários que mais machucavam não vinham de desconhecidos. Vinham da própria família.
E isso me fez pensar o quanto normalizamos atravessar os limites de quem mais amamos. Família não ganha um passe livre para comentar sobre o seu corpo, sua vida ou suas escolhas. Foi algo que eu mesma precisei aprender. Durante muito tempo eu suportava certos comentários porque achava que responder seria falta de educação ou criaria um conflito. Até que comecei a dizer, com calma e firmeza:
"Sobre isso nós não vamos falar."
Confesso que imaginei que isso afastaria aquela pessoa de mim.
Aconteceu exatamente o contrário.
Nossa relação melhorou muito depois que meus limites ficaram claros. Porque limite não afasta quem nos respeita. Limite organiza a relação.
E os exemplos de sincericídio são infinitos.
Uma vez, um seguidor viu uma foto do meu pé — que já era uma insegurança para mim — e comentou:
"Você tem uma pinta que pode ser cancerígena."
Imaginem receber isso, do nada, olhando uma foto.
Qual era a necessidade?
Nos stories também recebi relatos que mostram como esse comportamento está em todos os lugares.
Perguntaram para um casal:
"Quando você vai assumir ela de verdade?"
Só porque uma das pessoas era não monogâmica e alguém resolveu duvidar da legitimidade daquele amor.
Outro casal ouviu:
"Mas vocês namoram mesmo? Ela é mais alta que você."
Como se altura definisse afeto.
E tem um comentário que eu escuto com uma frequência impressionante sempre que falo dos meus relacionamentos:
"Ah, eu não conseguiria."
E eu sempre fico pensando... quem perguntou?
Brincadeiras à parte, é curioso como algumas pessoas sentem a necessidade de reafirmar as próprias escolhas diante da escolha do outro. Como se, para validar a própria forma de amar, precisassem invalidar a do outro.
Confesso que já pensei em começar a fazer o mesmo. Quando uma amiga monogâmica disser: "Fiz o jantar para o meu marido", vou responder imediatamente:
"Eu não conseguiria."
Ou quando contar que passou o fim de semana inteiro só com o parceiro:
"Eu? Não conseguiria."
Percebem como soa estranho?
Porque a questão nunca foi conseguir ou não conseguir. A questão é respeitar.
Cada pessoa constrói suas relações a partir da sua história, dos seus desejos, das suas crenças e dos acordos que faz. Não existe necessidade alguma de transformar a sua experiência em régua para medir a vida do outro.
E quantas pessoas recebem elogios por terem emagrecido quando, na realidade, estão adoecendo emocionalmente?
Nem todo comentário é cuidado.
Nem toda sinceridade é gentileza.
Existe uma pergunta que pode nos ajudar muito antes de abrir a boca:
O que eu vou dizer é necessário? É útil? É gentil?
Se a resposta for não, talvez o silêncio seja uma demonstração muito maior de respeito.
Da mesma forma, precisamos aprender que colocar limites também é um ato de amor.
Dizer "prefiro não falar sobre meu corpo", "esse assunto me machuca" ou simplesmente "sobre isso nós não vamos conversar" não é grosseria. É autocuidado.
E quero terminar fazendo um convite, principalmente para nós, mulheres.
A gente fala tanto sobre mulheres apoiarem outras mulheres. Mas apoio também passa por respeitar escolhas diferentes das nossas.
Não precisamos convencer a outra de que a nossa forma de viver é a certa. Não precisamos projetar nossas crenças, nossa cultura ou nossos medos na vida de quem fez um caminho diferente.
Podemos simplesmente ouvir.
Receber.
Aceitar.
Respeitar.
Sem competir. Sem julgar. Sem tentar enquadrar a outra na nossa verdade.
Quando aprendemos a fazer isso, criamos relações mais leves, mais honestas e muito mais acolhedoras.
Então, fica um convite para este mês: antes de comentar sobre o corpo, a aparência, os relacionamentos ou as escolhas de alguém, pense se aquilo realmente acrescenta alguma coisa.
Na dúvida, não fale.
E, quando alguém ultrapassar um limite seu, lembre-se: você não precisa aceitar tudo em nome da educação.
Às vezes, a conversa mais respeitosa é justamente aquela que nunca acontece. E, muitas vezes, o maior gesto de amor é simplesmente permitir que o outro exista do jeito que escolheu existir.
"Perdemos uma Copa, mas no próximo ano teremos outra oportunidade de torcer. Que a Copa do Mundo Feminina nos lembre que, quando mulheres se unem, todas ganham."




Comentários