Estados Unidos atacam Venezuela e capturam Nicolás Maduro e sua esposa Cília Flores
- Jefferson Almeida
- 3 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.
O líder venezuelano Nicolás Maduro será alvo de acusações formais nos Estados Unidos. Entre os crimes apontados estão narcoterrorismo, conspiração para a importação de cocaína, posse de metralhadoras e artefatos explosivos, além de conspiração relacionada à posse desses armamentos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou em post na rede Truth Social o ataque contra a Venezuela na madrugada deste sábado (3) capturando o Presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cília Flores.
Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque em larga escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado e levado para fora do país juntamente com sua esposa. Esta operação foi realizada em conjunto com as forças de segurança dos EUA. Mais detalhes em breve. Haverá uma coletiva de imprensa hoje, às 11h, em Mar-a-Lago. Obrigado pela atenção! Presidente Donald J. Trump.
Em entrevista ao Canal Fox News, Trump disse ainda que Maduro está a caminho dos Estados Unidos em um navio da Marinha americana.
A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, afirmou que Maduro será enviado ao país e julgado em tribunal de Nova Iorque.
As razões de Trump para o ataque à Venezuela
Em conversa com funcionários da inteligência americana em julho de 2017, em que estava presente o ex-diretor do FBI, Andrew McCabe, Trump questionou por que os país ainda não tinha iniciado uma guerra contra a Venezuela. McCabe revelou a conversa no livro “The Threat” (A Ameaça), lançado em 2019. Segundo o autor, Trump estava interessado no petróleo venezuelano e teria se referido ao país com o “quintal dos Estados Unidos”.
Para justificar os ataques desta madrugada, frente ao direito internacional, os Estados Unidos recorreram a guerra contra o narcotráfico, surpreendendo os analistas em diplomacia. Já há alguns meses o presidente norte-americano vinha acusando Nicolás Maduro e seu regime político de proteger os grandes traficantes que atuam na região.
Mas, segundo o professor Marcos Vinícius de Freitas, especialista em relações internacionais na China Foreign Affairs University, em entrevista à CNN Brasil, a Venezuela não tem relevância na rota do tráfico internacional de drogas.
Repercussão dos ataques americanos na América do Sul
O presidente Luís Inácio Lula da Silva, em sua rede oficial no X, condenou os bombardeios a Caracas e a captura de Nicolás Maduro. Lula enfatizou que a soberania venezuelana foi atingida, abrindo precedentes para outras ações na América do Sul.
Javier Milei, alinhado à atual política internacional norte-americana, comemorou a derrubada de Maduro e associou a imagem de Lula ao venezuelano na postagem que fez no X.
Gustavo Petro, da Colômbia, também condenou os ataques à soberania venezuelana. Recorrendo ao princípio da autodeterminação das Nações Unidas, Petro afirmou que os problemas internos da Venezuela devem ser resolvidos de forma pacífica.
Já Maria Corina Machado, escolhida como Nobel da Paz em 2025 e liderança de oposição a Nicolás Maduro, divulgou nota sob o título “Chegou a hora da liberdade” em que acusa Nicolás Maduro de ter cometido diversos crimes contra o povo da Venezuela.
O destino da Venezuela
Ainda é muito cedo para se fazer qualquer prognóstico quanto ao futuro político do país. Para Delcy Rodríguez, vice-presidente, Maduro encontra-se desaparecido e exigiu do governo dos Estados Unidos uma prova de vida do casal capturado nesta madrugada.
Já Donald Trump afirmou à Fox News que, embora o futuro político do país ainda seja incerto, tem duas certezas. A primeira é que os Estados Unidos estarão “fortemente envolvidos” na indústria petroleira venezuelana daqui em diante e a segunda é que o regime inaugurado por Hugo Chaves, chegou ao fim.
Será o fim do “bolivarianismo”?
Já há alguns anos, venezuelanos vêm cruzando as fronteiras do Brasil buscando melhores condições de vida. Segundo muitos destes imigrantes, a situação econômica do país vizinho é deplorável e não há abertura política para que possível melhoras possam ocorrer. Controlando os meios de comunicação, o país inibe a visibilidade que a oposição busca manter em relação ao regime político.
O bolivarianismo ganhou força na Venezuela de Hugo Chávez a partir da tentativa de golpe que sofreu em 2002. Antes de sua chegada ao poder, dois partidos políticos de viés liberal — a Acción Democrática (AD) e o Partido Social Cristão da Venezuela (COPEI) — se alternavam no poder desde 1958. Em 1992, Chávez, então tenente-coronel do Exército, liderou uma tentativa fracassada de golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Preso, mas libertado em 1996, Chávez passou a ser visto pela população em geral como uma alternativa à desgastada situação política do país.
Eleito com 56% dos votos em 1998 e empossado presidente em fevereiro de 1999, Hugo Chávez iniciou um ciclo de reformas que mudaria internamente o país e teriam também reflexos nas relações internacionais na América.
Recuperando um antigo ideal de integracionista de Simón Bolívar (1783-1830), líder da independência venezuelana em relação ao Império Espanhol no século XIX, Chávez buscou aproximar as nações da América Latina, sobretudo pelo viés político mais próximo à esquerda. É o que chamou de socialismo no século XXI.
Após a tentativa de golpe de sofreu em 2002, seu poder se fortaleceu e a resistência imposta aos golpista aumentou sua popularidade e legitimidade. Daí em diante, a Venezuela chavista, passou a ser vista como uma referência na resistência ao imperialismo e, por meio de uma postura nacionalista, confrontou as elites tradicionais do país que sempre estavam abertas ao capital internacional.
Ganhava força o bolivarianismo que, contando com a simpatia de Fidel Castro, atrelada à ascensão democrática das esquerdas latino-americanas no início do século XXI ganhou visibilidade. O principal reflexo desse momento foi o deslize político do chavismo para o socialismo e para o nacionalismo.
A estatal venezuelana do Petróleo — a PDVSA — a participar de empreendimentos, como foi o caso da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, cujas obras iniciaram-se em 2005 entrando provisoriamente em operação em 2014.
Na época, a escolha do nome do militar e político Abreu e Lima (1794-1869), por Hugo Chávez e pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, era uma forma de demonstrar a relação política entre estes dois países. Abreu e Lima era um apoiador da causa de Simón Bolívar no século XIX.
A PDVSA também esteve envolvida em um patrocínio cultural ao desfile do carnaval de 2006 da escola de Samba Unidos de Vila Isabel, cujo enredo falava da latinidade,fazendo uma grande exaltação à figura de Simón Bolívar.
Após chegar ao poder, Chávez convocou uma nova Assembleia Nacional Constituinte, mudou no nome do congresso para Assembleia Nacional e fez mudanças nos símbolos nacionais da Venezuela. A bandeira do país que antes de sua ascensão ao poder tinha apenas sete estrelas, passou a ter oito.
Esta oitava estrela fazia referência à província de Guayana que inicialmente teria mantido lealdade à Espanha, mas depois veio a aderir a Bolívar quando da independência do país. Na concepção dos chavistas, Guayana sempre esteve no apoio a Bolívar.
Também o cavalo branco que estava no brasão de armas venezuelano e que corria para a direita orientando a cabeça para a esquerda, passou a correr somente para a esquerda. O país passou a se chamar oficialmente República Bolivariana da Venezuela.
Estes símbolos nacionais foram estrategicamente manobrados para indicar a ruptura política porque o país estava passando. Mas sobretudo, para tentar construir uma memória e uma história oficial para o país.
Não aceitando o avanço do bolivarianismo, as elites internas intensificaram um processo de polarização política. As sucessivas reeleições de Hugo Chávez também foram alvos de críticas. Quando de sua morte, em 2013, seu vice-presidente Nicolás Maduro assume o controle político do país, herdando também a missão de dar prosseguimento à Revolução Bolivariana.
A situação econômica agravou-se ainda mais, a partir de 2014 quando, no governo de Barack Obama, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a lei 113-278, que proibiu a todas as empresas nacionais ou estrangeiras que tenham negócios com país de estabelecerem relações econômicas com a República Bolivariana da Venezuela.
O ataque liderado pelos Estados Unidos nesta madrugada à Venezuela não pode ser pensado somente como uma reação ao narcotráfico. Do ponto de vista histórico, a América Latina é estratégica para os interesses econômicos e políticos dos Estados Unidos no continente.
Saber qual será o futuro do país no calor deste momento ainda não é certo. Mas Maria Corina Machado defende que Edmundo González Urrutia, assuma a presidência do país imediatamente. Na véspera das eleições de 2024, Urrutia aparecia nas pesquisas como provável eleito. Abertas as urnas, Maduro venceu o pleito com folga, o que aumentou as suspeitas de que as urnas e a apuração foram fraudadas pela situação.
Para saber mais:
SCHEIDT, Eduardo; ARAUJO, Rafael. A Revolução Bolivariana em perspectiva histórica e conceitual (1999-2023). 1. ed. Recife: Edupe, 2024. 286p.




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