Machismo estrutural e analfabetismo emocional: reflexões contemporâneas
- Natália Aguilar

- há 1 dia
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O machismo estrutural não apenas oprime mulheres, mas aprisiona homens em um silêncio emocional que gera adoecimento, solidão e violência.

Quando falamos sobre machismo estrutural, quase sempre pensamos, e com razão, nas violências e desigualdades que atingem diretamente as mulheres. Pensamos no medo cotidiano, na sobrecarga emocional e doméstica, nas cobranças sociais, no assédio, na desvalorização, na dificuldade histórica de existir com liberdade e segurança. Mas existe um outro lado desse sistema, menos comentado e mais silencioso, que também produz sofrimento: a forma como o machismo constrói e aprisiona os homens.
Falar sobre isso não significa justificar atitudes abusivas ou minimizar as dores femininas. Significa reconhecer que o machismo é um sistema tão profundo que, ao mesmo tempo em que favorece homens em vários espaços sociais, também os ensina a viver de um jeito emocionalmente limitado. E essa limitação cobra um preço alto, não apenas para eles, mas também para as mulheres, para os filhos e para a qualidade das relações humanas.
Desde muito cedo, muitos meninos aprendem que sentir é perigoso. O menino que chora é chamado de fraco. O que demonstra medo é ridicularizado. O que pede colo é corrigido com frases como “engole o choro” ou “isso não é coisa de homem”. Aos poucos, ele aprende que existe uma regra invisível: homens devem ser fortes, firmes, racionais, e principalmente silenciosos diante da própria dor. E isso não acontece apenas dentro de casa. Acontece na escola, na rua, nas brincadeiras, nos exemplos sociais, na cultura e até em pequenos comentários que parecem inofensivos.
O problema é que sentimentos não desaparecem porque alguém mandou esconder. Tristeza, frustração, medo, insegurança, rejeição e solidão continuam existindo. A diferença é que, quando não há espaço para expressão emocional, esses sentimentos se acumulam e começam a se manifestar de outras formas. Muitos homens crescem sem aprender a nomear o que sentem. Tornam-se adultos que não sabem explicar a própria angústia, que confundem tristeza com irritação, medo com agressividade e vulnerabilidade com vergonha.
É comum observar homens que não conseguem falar sobre si. Não porque não tenham emoções, mas porque foram ensinados a não entrar em contato com elas. E quando isso acontece, a repressão emocional pode se transformar em adoecimento: ansiedade, depressão, burnout, compulsões, isolamento, dificuldade de manter relacionamentos e, em alguns casos, agressividade. Nem sempre essa repressão vira violência externa, mas muitas vezes vira uma violência interna silenciosa, que o próprio homem carrega sem perceber.
Existe também um aspecto importante da solidão masculina que muitas pessoas não percebem: não se trata apenas de estar sozinho, mas de não ter intimidade emocional real com ninguém. Muitos homens têm colegas, amizades, grupos sociais e convivências, mas poucos têm uma rede de apoio onde seja possível falar sobre fragilidade, fracasso, insegurança e dor sem se sentir diminuído. Em muitos casos, a única pessoa com quem o homem tenta se abrir é a companheira. E isso gera uma sobrecarga enorme para as mulheres, que acabam assumindo o papel de parceira, amiga, cuidadora e, muitas vezes, “terapeuta” emocional da relação.
O machismo também cria uma exigência constante de desempenho. O homem precisa ser provedor, precisa ter sucesso, precisa demonstrar controle, precisa ser forte, precisa ser respeitado, precisa estar sempre pronto. Ele não pode falhar. Mas a vida é feita de falhas, perdas, quedas e lutos. E o luto exige justamente aquilo que o machismo proíbe: vulnerabilidade. Exige pausa, exige expressão, exige reconhecimento da dor. Por isso, muitos homens não elaboram suas perdas, apenas seguem funcionando como se nada tivesse acontecido. E o que não é vivido emocionalmente não desaparece: vira endurecimento, distanciamento, irritação constante ou adoecimento físico e psicológico.
A cultura do “aguenta firme” é um convite ao sofrimento. Muitos homens não procuram psicoterapia, não falam sobre saúde mental, não pedem ajuda e evitam qualquer atitude que pareça sinal de fraqueza. E quando finalmente buscam apoio, muitas vezes já estão no limite, com sintomas graves e relações fragilizadas. Isso não acontece porque eles não se importam, mas porque foram ensinados a acreditar que cuidar de si é vergonha e que demonstrar dor é falhar como homem.
Essa é a solidão silenciosa masculina: uma dor que raramente é nomeada, porque nomear exigiria admitir que existe algo quebrado por dentro. Muitos homens não sabem pedir socorro com palavras, então pedem com comportamentos. Pedem com silêncio, irritação, afastamento, vícios, traições, explosões ou indiferença. Isso não deve ser romantizado, mas precisa ser compreendido, porque aquilo que não encontra espaço saudável para existir acaba encontrando caminhos “tortos”para aparecer.
A desconstrução do machismo não é importante apenas para proteger mulheres, mas também para permitir que homens possam existir de forma mais humana. Um homem emocionalmente saudável não é aquele que nunca chora, mas aquele que sabe reconhecer o que sente, que consegue falar, que se responsabiliza pelas próprias emoções e que busca ajuda quando necessário. Vulnerabilidade não é fraqueza. Vulnerabilidade é maturidade. É coragem.
Acolher a dor masculina não significa isentar ninguém de responsabilidade. Homens continuam responsáveis pelas próprias atitudes e pelo impacto delas sobre o outro. Mas também é necessário reconhecer que ninguém aprende a lidar com emoções no abandono. Se queremos uma sociedade menos violenta e relações mais saudáveis, precisamos ensinar meninos a sentir, a falar e a se conectar. Precisamos permitir que homens construam redes de apoio e se autorizem a ser cuidados.
O machismo estrutural produz homens endurecidos e emocionalmente solitários. Produz mulheres sobrecarregadas e feridas. Produz famílias que repetem padrões de silêncio e desconexão. No fim, ninguém ganha nesse sistema. Existe apenas um ciclo de sofrimento que se perpetua.
Talvez uma das maiores mudanças do nosso tempo seja compreender que ser forte não é esconder a dor. Ser forte é olhar para dentro e ter coragem de se responsabilizar pelo que existe ali. Quando um homem se reconcilia com suas emoções, ele não se torna menos homem. Ele se torna mais humano. E quando isso acontece, as relações ao redor também começam a mudar.




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