O protagonismo feminino nos desfiles de Carnaval
- Jefferson Almeida
- há 1 dia
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A narrativa mudou: antes estereotipadas, hoje as mulheres assumem o protagonismo da cultura nos enredos das escolas de samba.

“Mulher à brasileira” foi o enredo apresentado pela Portela no carnaval de 1978. A proposta era mostrar uma mulher heroína, cordial e sensual. Por anos, esse foi o enfoque dado ao feminino. A relação entre paraíso, carnaval e mulheres seminuas marcou durante muito tempo as telas da televisão que, sob ordens das direções de transmissão, direcionavam as câmeras para aquilo que o público “supostamente” queria ver.
O lugar das mulheres sempre foi de protagonismo nas escolas de samba. Muitas delas abriam seus quintais para rodas de samba e presenciaram as reuniões de fundação de diversas agremiações. Baianas, passistas, aderecistas e inúmeras trabalhadoras dos barracões sempre garantiram o sucesso dos desfiles e hoje fazem parte das memórias que auxiliam na escrita da história de muitas escolas de samba.

Essa nova percepção do papel feminino na história esteve presente em 2020 no enredo “Viradouro de Alma Lavada”. A escola de Niterói cantou as mulheres negras escravizadas que lavavam e quaravam roupa na lagoa do Abaeté, além de vender seus quitutes. Conhecidas como as “ganhadeiras de Itapoã”, elas tiveram papel importante nos processos de alforria e as remanescentes dessa ancestralidade estiveram presentes no desfile campeão daquele ano.
Em 2023, a Viradouro escolheu novamente falar de uma mulher. A história de Rosa Maria Egipcíaca, baseada no livro do historiador Luís Mott, mostrou sua trajetória entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, destacando seu lado místico, religioso e atuante na luta contra a escravidão.

Assim como Rosa Egipcíaca, Chica da Silva, também pouco conhecida, ganhou destaque no Salgueiro, em 1963. Campeonato muito celebrado pela escola e ainda presente na memória dos seus mais antigos componentes até os dias de hoje. Celebrando também o protagonismo das Candaces, o Salgueiro cantou as guerreiras do reino de Cuxe, atual Sudão, chamando a atenção para o seu papel político e militar na Antiguidade.
Em 2026, novas personagens se apresentarão na passarela: mulheres pretas que traziam símbolos de resistência e poder por meio dos balangandãs (adornos corporais), lembradas pela União de Maricá; profissionais do sexo, exaltadas na Unidos do Porto da Pedra; escritoras como Carolina Maria de Jesus, homenageada pela Unidos da Tijuca, e Conceição Evaristo, celebrada no Império Serrano. No sábado (14), a Mocidade Alegre promete emocionar o sambódromo do Anhembi com “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”.
Beth Carvalho, Ivone Lara, Alcione, Ruth de Souza, Zezé Motta, Elza Soares e tantas outras já tiveram suas trajetórias cantadas nos desfiles. Reconhecimento que aproxima essas mulheres do povo e reafirma: o carnaval é também uma história de protagonismo feminino.




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