Scarlett O’Hara e sua criadora
- Estefane S. Worst

- há 1 dia
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Tal qual sua heroína: descubra como a vida desafiadora de Margaret Mitchell inspirou a criação da icônica Scarlett O'Hara

Scarlett O’Hara é um ícone do cinema e da literatura, uma mulher que desafiava as regras da sociedade de sua época, que era extremamente machista e controladora em relação às mulheres. E que, quando esteve em situações de adversidade, preferiu fazer o seu próprio destino ao invés de deixá-lo nas mãos dos homens.

Mas Scarlett também é uma personagem extremamente controversa, tal qual “…E O Vento Levou”, livro a qual pertence. Apesar de quebrar com os padrões da época, ela despreza outras personagens femininas em boa parte do livro, é escravocrata e racista, além de sua figura representar o arquétipo da femme fatale, reforçando estereótipos.
Tanto o livro “…E O Vento Levou”, como Scarlett são frutos de uma época e, por isso, as atitudes da personagem não são compatíveis com os princípios atuais. Mas a existência desta personagem e obra foi importante para que chegássemos a algumas discussões atuais. Assim como seu livro, Scarlett pretendia conversar com as pessoas do seu tempo, provocando-as em relação aos seus preconceitos e, por isso, ficou datada.
Mas quem é a mulher por trás deste clássico tão controverso?
Margaret Munnerlyn Mitchell escreveu apenas um livro, “…E O Vento Levou”, o qual lhe rendeu um Prêmio Pulitzer de Ficção em 1937. Mas também foi jornalista e filantropa durante o resto de sua vida, escandalizando, de sua própria forma, a sociedade de Atlanta, Geórgia, tal qual sua heroína.

Filha de um advogado, que também era diretor da Sociedade de História de Atlanta, e de uma sufragista, podemos notar que as personalidades de seus pais refletem muito em sua obra, além de seu lado jornalista. Mesmo descrevendo o lado dos confederados durante a Guerra de Sucessão, ela não cria heróis ou vilões.
O sul, em boa parte do tempo, não é romantizado, e os Yankes não seguem os estereótipos sulistas da época, que os classificava como mal educados e grosseiros, mas tem seus próprios defeitos e preconceitos. Esse tipo de narrativa é conivente com alguém que foi criado por um historiador e foi jornalista por boa parte da vida. Através de seus personagens fictícios, Mitchell tenta mostrar a realidade de uma época e que, por mais diferente que sejam de nós, aquelas pessoas também eram seres humanos.

Já o lado de sua mãe pode ser visto na personalidade de sua heroína, Scarlett, que não se conforma em viver nos padrões impostos para uma dama sulista da época, e faz ela mesma o seu destino, tal qual as sufragistas. Também podemos ver a influência de sua mãe na própria vida de Margaret, que lembra muito a de Scarlett em alguns pontos.

Durante a primeira guerra mundial, Margaret perdeu seu noivo no conflito, e teve que retornar para casa após a morte de sua mãe, abandonando seus estudos. Apesar de assumir o cuidado da casa, de seu irmão e seu pai, não se conformava a viver pelos padrões da época, logo ganhou fama de melindrosa e escandalizou a alta sociedade por realizar trabalhos sociais com a população negra da cidade.
Com o fim da guerra, Margaret se casou pela primeira vez. Os rendimentos do marido não eram suficientes para manter o casal e, por isso, ambos se mudaram para a casa dos Mitchells e a autora arranjou um emprego como repórter do "The Atlanta Journal Sunday Magazine".
O editor deste jornal era um ex-namorado da autora, o que não melhorou a reputação de Margaret. Em outubro de 1924, ela se divorciou do primeiro marido por seu comportamento agressivo. E, em 4 de julho de 1925, dia da Independência dos Estados Unidos, casou- se com seu ex namorado, Marsh. Em seguida, o casal se mudou para um apartamento próprio, mas, infelizmente, logo Margaret teve que se afastar do jornal por um problema de saúde.
Mas nossa autora não era o tipo de pessoa que ficava em casa sem mais nada para pensar além do serviço doméstico. Logo ela começaria a escrever a história que se tornaria um clássico. Em poucos anos o livro estava pronto e seus direitos foram comprados pela editora Macmillan. A obra foi lançada em 10 de junho de 1936, logo se tornando um best-seller.
Quando olhamos para o texto de “…E O Vento Levou” atualmente, notamos que ele perpetua diversos preconceitos de raça e humaniza os sulistas escravocratas. Mas, se colocarmos no contexto da época, principalmente no da sociedade de Atlanta, Geórgia, o livro era extremamente inovador e cutucava diversas feridas da sociedade sulista, que romatizava o período da guerra da secessão. Assim, surge um clássico, crítico demais para seu tempo, mas não crítico o suficiente para a atualidade.
Mitchell fez o melhor que pôde para dialogar com a sociedade de sua época, o que a condenou a ficar datada, principalmente no quesito do racismo. Mas, quando falamos da sua construção de personagens, principalmente as femininas, encontramos o motivo para o sucesso de sua obra ser contínuo.
Scarlett se destaca, mas mesmo aquelas mulheres que parecem se enquadrar no estereótipo da época não são tão rasas como parecem. A exemplo temos Melanie, que, quando necessário, ela, que era considerada a dama perfeita, não se deixa tornar uma donzela em apuros. Salvando a si mesma, junto com a nossa protagonista, no fim da guerra. Esta personagem também fica ao lado de Scarlett, quando toda a sociedade de Atlanta estava a criticando, por saber seu verdadeiro caráter. Outras mulheres da alta sociedade também se reinventam após a guerra e abrem seus próprios negócios para garantir sua sobrevivência.

A autora pôde ver o lançamento da adaptação cinematográfica de sua obra, que teve seu lançamento em 15 de dezembro de 1939, além da cerimônia do Oscar de 1940, em que o filme levou 10 estatuetas, incluindo a de melhor atriz coadjuvante para Hattie McDaniel por sua interpretação de Mammy: ela foi a primeira pessoa negra a ganhar um Oscar.

Após receber os direitos autorais da adaptação cinematográfica, Margaret se tornou uma mulher rica e decidiu se dedicar às suas atividades filantrópicas, encerrando sua carreira no jornalismo e na literatura.
Mais tarde, infelizmente, ao atravessar uma rua próxima à sua residência, em 11 de agosto de 1949, Margaret foi atropelada por um táxi. A autora morreu 5 dias após o acidente, sem nunca ter recuperado a consciência. Seu marido, John Marsh, morreu em 1952 e foi enterrado ao seu lado.

Por fim, apesar de todas as suas controvérsias, “…E o Vento Levou", deixa uma mensagem forte sobre mudança, já que mesmo que o hoje seja difícil, amanhã é outro dia.




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