Os carrascos de Ângela Diniz vivem
- De Mulher Para o Mundo
- 6 de jan.
- 8 min de leitura
O que o caso da socialite assassinada nos diz sobre o julgamento, justiçamento e difamação da mulher em sociedade e por que é preciso falar incessantemente sobre isso.

A série Ângela Diniz: Assassinada e condenada chegou ao streaming no início de dezembro passado e precisamosfalar sobre e refletir sobre a história trágica da mulher em que fora inspirada. Ângela (10 de novembro de 1944 - 30 de dezembro 1976), uma socialite mineira, radicada no Rio de Janeiro, assassinada por seu companheiro. Um notório caso de feminicídio, quando este ainda nem tinha tipificação, no qual, além de morta, Ângela fora difamada e execrada nos tribunais da Justiça, da imprensa e da sociedade.
A série da HBO Max sobre Ângela, disponível também no Prime Video, é baseada no podcast documental Praia dos Ossos (agosto de 2020), produzido pela Rádio Novello e idealizado pela jornalista Branca Vianna, com pesquisa, coordenação e produção de Flora Thomson-DeVeaux (ouça aqui o podcast). Nele, é possível ter acesso a relatos diretos de pessoas que conviveram com Ângela e Doca, seu companheiro e assassino, e também trechos do julgamento cujo intuito parece não só evitar a condenação do réu, mas promover a condenação da mulher Ângela Diniz por sua postura considerada não adequada em sociedade — ou o fato não adequado de ser mulher no mundo de ontem e até os dias de hoje.
A produção audiovisual Ângela Diniz: Assassinada e condenada tem no papel da protagonista a atriz Marjorie Estiano e direção de Andrucha Waddington, é produzida pela Conspiração Filmes e em parceria com a Rádio Novelo. Apesar de ter base na história de Ângela, alguns fatos, falas e personagens são fruto da criação ficcional. Porém, o puro suco da realidade, ou melhor, o caldo do chorume do machismo e da misoginia com que o caso fora conduzido na Justiça e julgado pela sociedade transborda em cada um dos seis episódios.
Mas por que, mais do que nunca, é preciso falar sobre Ângela Diniz e a condenação social feminina com a difamação e até morte? Porque a história de Ângela é ainda atual e continua acontecendo brutalmente em diferentes formas de violência simbólica ou concreta contra as mulheres.
Sigamos o fio…
No dia 30 de dezembro de 1976, Ângela Maria Fernandes Diniz foi assassinada com um tiro na nuca e dois no rosto em Búzios (RJ), mais precisamente em uma casa de praia alugada por ela e seu companheiro à época, o playboy Raul Fernando do Amaral Street (42 anos), conhecido como Doca Street, autor dos disparos. O assassinato teria sido motivado por ciúmes.
No entanto, relatos de amigos e funcionários do casal afirmavam que o relacionamento já não vinha bem há algum tempo. Doca era controlador, havendo até quem diga que Ângela aparecera machucada e sangrando em uma ocasião. No dia da morte, o casal estava apenas há dois dias em Búzios, numa tentativa de recomeçar o relacionamento e ter uma vida mais tranquila, longe das festas e colunas sociais da capital.
O crime chocou a conservadora sociedade da década de 1970. Principalmente por se tratar de duas figuras amplamente populares por meio das colunas dos jornais que cobriam o society nacional. Ângela era conhecida pela beleza, mas também detentora de uma fama de autônoma e “prafrentex” demais para uma mulher de seu tempo. Doca pelo estilo de vida bon-vivant e pelo apelo sensual de Don Juan, além de par do furacão Ângela Diniz, a mineira que chocava e encantava a sociedade com sua atitude vanguarda para a época — desquitada, conhecida por frequentar festas e boates, aparecer na companhia de diferentes homens e ser “namoradeira”. Aliás, a semelhança com argumentos condenatórios atuais à moral da mulher ainda hoje não é mera coincidência. Sim, até hoje os mesmos conceitos são aplicados para se difamar, condenar, agredir e matar mulheres. O ideário sobre Ângela era tamanho a ponto de ela ter recebido a alcunha de “Pantera de Minas” pelo então colunista Ibrahim Sued.
Aterrador e amplamente coberto pela imprensa e acompanhado pela população foi o desenrolar do caso de assassinato de Ângela e o tratamento a ele dados em sociedade e juridicamente.
O julgamento de Doca (?) ou de Ângela?

Após atirar em Ângela e assassiná-la, Doca ficara foragidopor dezessete dias. Quando apareceu, não foi para se entregar, num primeiro momento, mas para dar entrevista à imprensa. Só foi preso quando deu entrada numa clínica e os médicos ligaram para a polícia denunciando. Em depoimentos à imprensa, Doca não assumiu claramente a culpa do assassinato, se fazendo de vítima, apontando que largara a família e o trabalho por Ângela, a qual amava profundamente, e que o atrito entre os dois se dava pelo temperamento e atitudes.
Apenas em 1979 aconteceu seu primeiro julgamento, no qual foi condenado brandamente sob a égide “crime culposo excessivo praticado em defesa da honra”. Ele foi representado por Evandro Lins e Silva e em diversas passagens do julgamento é possível constatar na fala do advogado não só uma tese para a defesa de Doca, mas um discurso machista e misógino, sendo largamente aplicada a prática argumentum ad hominem — na qual se utiliza a difamação de uma pessoa em defesa de si, de uma tese ou de outrem, um ataque pessoal, em resumo.
Ao longo do julgamento, a vida de Ângela foi pormenorizada: sua moral, a conduta sexual considerada inadequada, um suposto vício em drogas, a sanidade e a “incapacidade” de Ângela como mãe, todos esses foram temas da defesa de Doca e do que circulava na imprensa à época. Um rol de práticas contra a mulher que hoje têm nome, mas, naquela época, contavam fervorosamente com aval social, pelo menos de grande parte da sociedade, jornalistas, homens e mesmo algumas mulheres.
Há trechos em que o advogado de Doca se refere a Ângela como uma Vênus lasciva, ao passo que tenta justificar o assassinato dela por Doca afirmando que ela o teria induzido com seu comportamento de “mulher fatal”:
“O senhor Raul é um homem bom, de bom passado, boa família, trabalhador, sempre cuidou de suas ex-mulheres, agora, refém do remorso, depois do deslize...”
“Ele nunca teria feito nada de errado se não tivesse sido levado ao limite”
“Será que esse pobre homem não pagou já o suficiente pelo que vez?”
“Mas ela provocou. Ela levou-o a esse estado de espírito. Este pobre rapagão, esse mancebo bonito, que se encantou pela beleza e sedução de uma Mulher fatal de uma vênus lasciva...”
Todas essas são frases do julgamento de Doca Street. Observa-se que, enquanto Ângela, a vítima, é difamada, o assassino é infantilizado como se tivesse sido levado “inocentemente” a cometer o crime que praticara.
Mais falas com o objetivo de desclassificar a vítima e descredibilizá-la foram proferidas pelo advogado de defesa, entre gritos de injúria contra Ângela por parte da audiência do tribunal:
“Uma prostituta de luxo da Babilônia.”
“Ela queria morrer […] Ela provocou a própria morte.”
“Seria justo um homem ser culpado por defender a própria honra?”
“portadora de personalidade neurótica […] dependente de álcool e drogas.”
“Absolvê-los jurados e terá sido feita a justiça.”
O tribunal (composto por um júri popular de sete cidadãos, entre eles duas mulheres) condenou Doca Street a uma pena de 18 meses pelo crime e seis meses por ter fugido da Justiça. Como já estava preso preventivamente por sete meses, recebeu o benefício de ser liberado por ter cumprido além de um terço da pena, o que garantiu soltura condicional. Saiu leve e solto para o que desse e viesse dali para frente e sem algemas do tribunal, ao passo que Ângela, morta e com a memória maculada, sem merecida justiça.
Após a sentença, parte da sociedade posicionou-se contra a pena branda de Doca. Alguns veículos de imprensa e jornalistas pressionaram, assim como o movimento feminista, que se articulou ao redor da causa e do julgamento.
Num segundo turno de júri, em novembro de 1981, Doca Street foi condenado a 15 anos de prisão. Notícias dão conta de que uma grande salva de palmas tomou o tribunal após a declaração da sentença.
Ficou preso três anos em regime fechado, transicionou para o semiaberto (dois anos) e, posteriormente, condicional (dez anos), ganhando a liberdade em 1987. Depois, teve uma vida livre. Inclusive, com parte dela, escreveu sua autobiografia, intitulada Mea culpa. Morreu em 2020, de infarto.
Somente em 2023, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional a tese de legítima defesa da honra em casos de violência contra a mulher e feminicídio.
É preciso falar sobre Ângelas
Que levante a mão a mulher que nunca foi socialmente julgada, difamada. Inclusive, se mortas fossem capazes de levantar braços, elas também poderiam se alistar ao filão. Na vida real, ao longo da história, em escrituras consideradas sagradas e mesmo na literatura não faltam exemplos de mulheres julgadas por seus atos ou mesmo execradas em praça pública literal ou metaforicamente, quando não assassinadas por seu sexo.
As bruxas que o digam, Maria Madalenas, Sylvias Seraphim, Eliane de Gramont, Claudia Lessin, Dana Teffe e tantas outras que, “culpadas” ou não, tiveram suas vidas e memórias destruídas pelo simples fato de serem mulheres numa sociedade machista, patriarcal e misógina.
Sem falar nos números relativos à desigualdade social que atinge as mulheres e casos de violência contra a mulher e feminicídio que falam por si sós — ou as calam por si sós —, alardeados diariamente nos noticiários em pleno século XXI. O que se intensifica de forma drástica por conta de questões interseccionais.
De acordo com dados do mais recente Painel de Violência Contra a Mulher do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2025, houve o registro de 8464 novos casos de feminicídio no Brasil (mais do que na edição anterior, de 2023, no qual foram contabilizados 7388 casos). No mesmo 2024, foram julgados 10991 casos de feminicídio no país.
No que tange os casos de violência doméstica, que incluem crimes previstos na Lei Maria da Penha e descumprimento de medidas protetivas, entre outros, os casos novos que chegaram à Justiça ultrapassaram o quantitativo de 966.785. Os casos julgados para esses tipos de crime alcançaram o total de 596.309. Já os casos de violência doméstica pendentes até o fim de 2024 corresponderam ao número de 1.297.142 (confira os números do Painel de Violência Contra a Mulher 2025 aqui).
Enquanto esta matéria é escrita, a imprensa noticia mais casos de violência contra a mulher e feminicídios. Uma jovem, atropelada pelo ex-namorado, faleceu após dias em estado grave com as duas pernas amputadas. Uma mãe fora assassinada a facadas na frente da filha pelo companheiro. Uma jovem, ao defender a irmã, fora assassinada recentemente pelo companheiro da irmã quando tentava defendê-la de agressões, apenas para citar três casos de um país que mata quatro mulheres por dia (dados do último Mapa da segurança Pública, de junho de 2025). No dia em que é publicada, basta percorrer as redes sociais e noticiários para constatar sumariamente novos e trágicos casos.
Por isso é preciso falar sobre Ângelas. Hoje e, infelizmente, ao que nos parece, ainda por um longo e brutal tempo, e por que não dizer, fatal, já que, para algumas mulheres, a morte é o trágico desfecho por seus corpos feminis.
Porém não se trata apenas de falar sobre a violência física e mortal praticada em si. É preciso debater a misoginia crescente e que instiga atos concretos de barbárie contra a mulher que paira na sociedade e é disseminada das conversas de esquina entre “brothers” às conexões da internet.
O movimento redpill, para citar apenas um, dissemina o ódio contra as mulheres e incita machismo e misoginia pelas redes indiscriminadamente. E mais: o Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, elaborado pelo NetLab/UFRJ em parceria com o Ministério das Mulheres, aponta um crescimento galopante da “machosfera” no YouTube.
Os influenciadores desse tipo de conteúdo, inclusive, ganham dinheiro com o que divulgam em seus canais. A pesquisa identificou 137 canais com conteúdo misógino. Em conjunto, somam 3,9 bilhões de visualizações, 105 mil vídeos publicados e, em média, 152 mil inscritos. Os temas mais recorrentes são desprezo às mulheres e insurgência masculinas, e as mais atacadas são as feministas, mães solteiras e mulheres com mais de 30 anos (veja o Sumário da pesquisa aqui).
Uma obra de ficção baseada em fatos reais, livre de sensacionalismos, pode sim atuar como fator conscientizador social. Mas é preciso que a obra não seja encarada apenas como um elemento de entretenimento. É necessário falar sobre ela e refletir sobre fatores que daquela engrenagem continuam rodando até os dias de hoje, garantindo que os números alarmantes de violência contra a mulher e de feminicídio cessem. Pelo bem das mulheres, pelo bem de todos. As mulheres não aguentam mais ser mortas!
Em tempo: quem ama não mata.




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