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Parentalidade, sobrecarga e sofrimento psíquico: o burnout como fenômeno atual

  • Foto do escritor: Natália Aguilar
    Natália Aguilar
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

Mais do que falta de sono, o esgotamento parental é um alerta de saúde mental. Saiba identificar os sinais e por que o amor não cura o burnout.


*Imagem gerada por Inteligência Artificial
*Imagem gerada por Inteligência Artificial

Durante muito tempo, o cansaço dos pais e das mães foi tratado como algo normal. Como se fosse parte obrigatória do pacote de ter filhos. Frases como “é assim mesmo”, “mãe não descansa”, “pai trabalha o dia todo” ou “quando cresce melhora” viraram respostas automáticas para qualquer sinal de exaustão. O problema é que nem todo cansaço é apenas cansaço. Em muitos casos, ele vai crescendo silenciosamente até se transformar em algo mais sério: o burnout parental.​


O burnout parental é um estado de esgotamento físico e emocional ligado diretamente ao exercício da parentalidade. Não se trata apenas de estar cansado após uma semana corrida ou de sentir sobrecarga em dias difíceis. Ele acontece quando a pessoa chega a um ponto em que não consegue mais se recuperar, mesmo descansando, e passa a viver em um ciclo constante de exaustão, irritação e sensação de incapacidade.


O que antes parecia apenas uma rotina pesada começa a ganhar outro peso. O corpo dá sinais. A mente também. E o que era suportável se torna insustentável.


Pais e mães em burnout geralmente descrevem a sensação de estar “no automático”, como se estivessem apenas sobrevivendo. A energia desaparece. A paciência encurta. O prazer em estar com os filhos diminui, não por falta de amor, mas porque o corpo e a mente já não conseguem mais sustentar a demanda emocional e prática do cuidado.

A pessoa começa a se sentir culpada por não dar conta, e essa culpa se soma ao cansaço, formando um ciclo perigoso.


Um dos aspectos mais dolorosos do burnout parental é que ele vem acompanhado de vergonha. Muitos pais e mães acreditam que não podem reclamar, porque escolheram ter filhos. Outros pensam que admitir exaustão é sinal de fraqueza, egoísmo ou falta de amor. Mas a verdade é que amor não impede esgotamento. Amor não substitui rede de apoio. Amor não resolve privação de sono, sobrecarga mental e ausência de descanso.


O burnout parental não surge do nada. Ele costuma ser resultado de um acúmulo. Rotinas exaustivas, falta de suporte familiar, pressão financeira, trabalho excessivo, ausência de tempo para autocuidado, exigências sociais e cobranças internas muito rígidas. Além disso, muitas mães vivem a realidade da carga mental: são elas quefrequentemente organizam, lembram, planejam, antecipam, cuidam e sustentam grande parte do funcionamento da casa, mesmo quando trabalham fora. E muitos pais, apesar de presentes, também sofrem em silêncio, especialmente quando não se sentem autorizados a expressar fragilidade ou pedir ajuda.


Com o tempo, o esgotamento começa a se manifestar de formas claras: irritabilidade constante, crises de choro, sensação de estar sempre atrasado, insônia, dores no corpo, ansiedade, apatia, perda de prazer, dificuldade de concentração, pensamentos de fuga e até sintomas depressivos. Alguns pais e mães se percebem distantes emocionalmente dos filhos e sentem medo disso, mas não conseguem reagir.

Outros se tornam explosivos, reagindo com gritos e agressividade verbal, e depois se culpam profundamente.


É importante dizer que burnout parental não significa ausência de amor. Significa ausência de recursos internos para continuar sustentando uma rotina que ultrapassou os limites do corpo e da mente.


A sociedade costuma romantizar a parentalidade como se ela fosse apenas amor, instinto e gratidão. Mas a parentalidade também é trabalho emocional intenso. Ela exige presença, repetição, paciência e entrega diária. Quando essa entrega acontece sem pausas e sem apoio, ela adoece. E quando adoece, não é apenas o adulto que sofre. A relação com os filhos também é impactada, porque uma pessoa emocionalmente exausta tem dificuldade de oferecer base segura, constância e acolhimento.


O que torna o burnout parental ainda mais perigoso é que muitas pessoas continuam funcionando mesmo esgotadas. Elas seguem levando filhos para escola, trabalhando, fazendo comida, pagando contas, respondendo mensagens, organizando a casa. Por fora parecem “dar conta”. Por dentro, estão quebradas. E quanto mais elas funcionam, mais invisível o adoecimento se torna. Até que chega o momento em que o corpo interrompe, ou a mente desaba.


Por isso, o burnout parental precisa ser levado a sério como questão de saúde mental. Não é frescura, não é exagero e não é falta de gratidão. É um sinal claro de que algo precisa mudar.


Reconhecer o burnout parental também é reconhecer que criar filhos não deveria ser um processo solitário. A ideia de que uma mãe ou um pai deve ser capaz de sustentar tudo sozinho é cruel e irreal. Ser pai e mãe exige rede. Exige divisão de tarefas. Exige apoio emocional. Exige tempo de descanso real. Exige que a pessoa exista além do papel parental.


Muitas vezes, a recuperação começa com pequenas atitudes: pedir ajuda, diminuir cobranças internas, reorganizar prioridades, buscar apoio profissional e, principalmente, romper com a ideia de que descanso é prêmio. Descanso é necessidade básica. Assim como alimentação e sono.


Buscar psicoterapia também pode ser um passo importante, porque o burnout parental frequentemente está associado a padrões emocionais profundos: perfeccionismo, dificuldade de delegar, medo de falhar, necessidade de controle e sentimento constante de inadequação. Em muitos casos, a pessoa não está apenas cansada das tarefas, mas também esgotada de tentar ser impecável o tempo todo.


Falar sobre burnout parental é, acima de tudo, falar sobre humanidade. Pais e mães são pessoas. Pessoas que sentem, que falham, que precisam de acolhimento e cuidado. O ideal de maternidade e paternidade perfeita adoece. E o silêncio em torno desse adoecimento só piora.


Quando o cansaço vira diagnóstico, não é porque alguém “não aguentou”. É porque por tempo demais essa pessoa foi obrigada a aguentar sozinha.


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