Vocês já se perguntaram por que vocês são monogâmicas?
- Momento Romasex
- 10 de abr.
- 6 min de leitura
Um papo sobre monogamia…

Eu sou não monogâmica porque eu quero ter direito ao meu próprio corpo. Por que? Se é na monogamia que as mulheres estão morrendo, eu não quero estar lá.
Pesei o clima, né? Eu não vou continuar pesando, mas é só para deixar claro que a Não Monogamia é sobre a autonomia da mulher e, pra gente refletir no quanto essa questão afeta nossa sexualidade, o quanto você se sente livre hoje em dia?
Eu nasci numa família branca, descendentes de italiano, todos magros altos... e eu com 13 anos não podia usar as mesmas roupas que minhas primas com a mesma idade, é porque você chama muita atenção., eles diziam, então eu cresci achando que meu corpo não era bom, ele chamava atenção e isso não era bom.... então meu sonho era ficar magrinha pra poder usar o cropped e os shorts que elas usavam...
Aí, quando eu cresci e vi que aquilo que eu achava que era tão ruim, na verdade era o que os homens gostavam, eu quis me vingar e entrei nesse lugar de “agora eu vou me aproveitar dessa situação” e virei super reativa, a que não namora, a que não quer nada sério, a que não dorme de conchinha. Eu cheguei a namorar, mas falava “pode me trair; só não deixa eu saber”, mas, na verdade, aquilo era uma casca, lá dentro eu sofria muito por achar que eu não era a mulher para namorar... e essa reação é muito perigosa quando se faz por vingança, né? Ninguém que tá na energia de vingança tá bem… e demorou muito tempo pra eu perceber isso.
Então o alerta é que nem todo discurso de liberdade é de fato libertador...
Quantas vezes você viu uma mulher que termina um relacionamento e começa a postar fotos mais sensuais nos stories, foto de biquíni, de bunda, e aí todo mundo elogia “nossa, você tá mais bonita”, mas o quanto ela tá fazendo isso para reagir ao trauma do término, do fracasso daquela relação, nessa energia reativa de algo ruim que ela passou, mas no fundo é um falso empoderamento, porque, no primeiro relacionamento que ela se sentir amada novamente, lá volta a menina puritana que não pode postar mais nada de biquíni, que não sai mais com as amigas, que se encaixa e se diminui para caber em alguma relação novamente…
Hoje eu boto a minha raba porque eu quero, mas nem sempre foi assim.
A Sociedade tá o tempo todo tentando fazer a gente caber em algum lugar... e esse ciclo se repete muitas e muitas vezes...
Então vamos começar com o conceito da sexualidade segundo a OMS: É energia que motiva encontrar o amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e integrações e, portanto, a saúde física e mental.
Se a saúde é um direito, então a sexualidade que envolve saúde física e mental deveria ser tratada do mesmo jeito, com mais seriedade, com intensidade, mas a gente não tem educação sexual. Isso inclui o direito de ter uma vida sexual prazerosa e segura, livre de coerção, discriminação e violência.
Então, pra ter uma vida sexual saudável, eu preciso ter segurança… mas como eu me sinto segura se eu nem sei o que eu gosto, o que eu não gosto, os meus limites, se eu nem amo meu corpo, porque o padrão de beleza é tão inatingível que só cabe numa mesa de cirurgia?
Então eu convido você a fazer essa busca de amor ao próprio corpo, e ao que você realmente sente e não o que nos ensinaram compulsoriamente como a heteronormatividade e a binariedade..
Ter uma vida sexual saudável dá trabalho, mas nem sempre estamos dispostos a pensar nisso, é a ultima coisa que a gente põe na lista de prioridades.. Primeiro o filho, o marido, a escola, o livro, o curso, menos a gente.
Eu, como sexóloga, ouço muito de mulheres quando eu ofereço um vibrador “ah, Bruna mas eu já me resolvo com meus dedos”, ou “ah, é que agora eu tô namorando, quando eu ficar solteira eu te procuro”, como se vibrador fosse coisa de gente solteira... e ainda tem as que o marido não deixam comprar, né?
Gente, vibrador é autoconhecimento... e o ponto é você se resolve com seus dedos, mas por que não sentir algo novo, por que não se permitir viver experiências que vão te aproximar do seu corpo e de você mesmo?
Porque as pessoas têm a mania de falar “ah, em time que tá ganhando não se mexe”, mas na sexualidade mexe sim, porque não somos uma coisa só, não gostamos de uma coisa só, e, mesmo quando gostamos, isso pode mudar ao longo de sua vida... então tenho muitos casos, por exemplo: “Bruna, eu gostava muito de tal fetiche com minha parceira e agora não tô gostando mais”, eu falo “tá tudo bem, ainda é você, isso não é ruim, mas você já falou com ela sobre isso?” Sexo rotineiro é o que acaba com os casais...
Só que, aí, assume a sua parte da história, se responsabilize pela sua história, porque quando você se diminui pra caber ainda numa relação, o preço que você tá pagando por aquilo é muito caro, porque o preço é você.
A primeira vez que eu fui numa casa de swing sozinha, estacionei na porta, com a roupa de piriguete e dancei pelada sem ninguém me tocar, sem ninguém me julgar, eu achei aquilo tão incrível que eu virei a peladona do rolê, eu tava dançando pelada... e aí teve um dia que eu não tirei a roupa e as pessoas falavam, “ih, cadê a Romasex? Romasex não veio hoje”... e aí fui e tirei a roupa... mas, quando eu cheguei em casa aquilo me bateu mal e eu pensei eu não queria ficar pelada aquele dia, mas eu tirei pra suprir a expectativa das pessoas... e, ali, eu já aprendi e falei pra mim mesma que eu não ia mais fazer isso comigo. A gente tem que ter coragem de desagradar em prol da gente... e aí foram muitos aprendizados nesse tempo de festas liberais, onde eu transava muito e eram só números, e depois eu comecei a levantar a bandeira de que não era sobre sexo, era sobre conexão, mas eu descobri que eu não tava conectando com ninguém, que as pessoas ali eram suas melhores versões, na melhor roupa, eram meus amigos de festa, mas pra quem eu podia ligar quando eu não tava bem? Com quem eu podia contar quando o calo apertava? Não era para aquelas pessoas que eu nem sabia o nome verdadeiro… então o meio me ensinou muita coisa e eu fui questionando muita coisa, mas foi quando comecei a estudar e li Geni Nunes, Brigite Vassalo que eu entendi que não era mais ali que eu queria estar... que eu podia ir quando eu quisesse, mas que não era ali que tava a minha verdadeira liberdade e autonomia.
E, então, eu comecei a entender uma coisa muito importante sobre a não monogamia: ela não é sobre quantidade de pessoas, ela é sobre qualidade de relação.
Porque, no fim das contas, não adianta você ter várias relações se você continua se escondendo em todas elas.
É sobre sentar e ter conversas difíceis. É sobre nomear o que você sente, mesmo quando dá vergonha. É sobre dizer “isso eu quero”, “isso eu não quero”, “isso eu ainda não sei”.
E isso é muito revolucionário. Porque a gente não foi ensinado a falar. A gente foi ensinado a agradar.
Então, quando a gente fala de relações não monogâmicas mais saudáveis, a gente tá falando de relações com mais diálogo, mais transparência e mais responsabilidade emocional.
Não é ausência de compromisso. É um compromisso ainda maior — só que com a verdade, e principalmente com a gente mesmo. Porque intimidade não é só transar.
Intimidade é você poder ser quem você é — sem performance, sem personagem, sem medo de perder o outro. E isso é uma tarefa só sua, sobre sua autoconfiança também… porque, ao contrário do que as pessoas pensam, que não monogamia é só flores, ser livre dá trabalho.




Perfeito!
Sou fã ❤️
Um texto potente, que não somente serve ao feminino. Cheio de camadas, rico em detalhes pessoais que atravessam as paredes da casa de swing, e chega a mesa de café da manhã, daquele casal que a muito passaram a não mais enxergar a individualidade, e por conta disso chegam em pedaços, querendo se completar no outro, nem que para isso, tenham que reduzir.
Como passamos a vida buscando caber, nem que para isso o custo seja nossa existência.
#pormaisromasex